DÊ-ME SEMPRE A SUA MÃO!

Longe de tudo, mas mais perto do que nunca. Quando nos afastamos um pouco dá pra enxergar melhor… dá pra ver até de olhos fechados.


Observava as telas de Amedeo Modigliani e reparava nos olhos vazados da maioria das figuras pintadas nelas. Ficava imaginando como ele podia enxergar o mundo com aquele olhar… afinal, dizem, retratamos a vida exatamente da forma como a percebemos. A partir desse pintor expressionista, que nasceu na Itália e elegeu Paris pra viver sua arte, criou-se a expressão ‘olhos de Modigliani’ – já que na maioria das vezes, ele pintava, nos rostos alongados, olhares vazios ou apenas borrões.
Uma das tela chamava sua atenção especialmente, e ela não cansava de sentar à sua frente, durante um bom tempo e ficar imaginando as circunstâncias daquela pintura: observava-a com a mesma delicadeza que sentia-se desafiada pelo enigma de cada traço. Durante sua estada em Barcelona, naquele dezembro inesquecível (esperando o novo ano chegar… décadas novas são mágicas, acreditava!) não houve um único dia em que ela não esteve lá, apreciando a mostra itinerante que homenageava o artista italiano, que só teve sua arte reconhecida depois de morto.
A tela se chamava El Violonchelista, era de 1909, pintada a óleo, ainda na primeira residência parisiense de Modigliani, em Montmartre; e suas cores quentes traziam algo capaz de traduzir exatamente o que ela sentia e não conseguia dizer. A arte costuma nos responder com pinceladas as perguntas que ainda nem fomos capazes de formular. Há uma comunicação quase sensitiva: afetos que se encontram numa outra dimensão e ali dialogam… por isso a paz (ou a inquietude) sentida nos espaços artísticos. “O que estou procurando não é realidade ou irrealidade, mas o inconsciente, o mistério do instintivo na raça humana”, dizia Modigliani aos seus amigos (inclusive Picasso).
Naqueles dias, de certa forma, o artista dissera isso a ela também, que vinha elucubrando essa áurea misteriosa que embala o primitivo de cada um… Longe de casa, como numa espécie de mágica, parece que sempre é noite, e fica bem mais fácil enxergar as estrelas do próprio céu. O familiar deve ter algo de luz acesa continuamente: holofote apontando censuras e valores rígidos que impedem que o o céu estrelado com talentos e coragens do sujeito apareça. Ali, naquelas ruelas europeias, era sempre noite enluarada: e ela vinha podendo enxergar seus brilhos todos!
Ao contrário de todas as outras telas que compunham a galeria, repleta de figuras com olhares vazados, essa lhe chamava a atenção: um homem tocando com os olhos fechados. Sim, era isso que a arrebatava: ela sempre acreditou que se pode tocar verdadeiramente com os olhos fechados… cordas, corpos, teclas, cabelos, almas; não precisamos enxergar quando conhecemos o caminho que conquista as notas e os suspiros mais íntimos. A pintura do violoncelista, enxergando tudo com seus olhos bem fechados, acordou um lado seu que ela achava tão bonito (e que diversas vezes, vida afora, colocara pra dormir!). Dividia-se, participando daquela imagem, e assim, sentia-se acompanhada: dela mesma, numa espécie de duplo que acendia suas luzes e tornava tudo mais claro.
Aquele silêncio acalentador permitiu que ela pensasse nele e, mesmo à distância, pudesse enxergá-lo com clareza. Roland Barthes afirma que para olhar bem uma foto é importante que se erga a cabeça ou se feche os olhos: “fechar os olhos é fazer a imagem falar no silêncio”, explica ele. Fechou os seus… e com a forma sonora que saía das cordas do violoncelo da tela na parede, revelou-o na sua mente: a imagem justamente daquele último momento que estiveram juntos, onde pela primeira vez ela conseguiu jogar com suas peças de dama na camisa xadrez dele…
“Quando conhecer sua alma, pintarei seus olhos”, dizia Modigliani, que parece ter deixado a mensagem que conhecera a alma de poucas pessoas. Ela sentiu que conhecia sim a alma dele: se quisesse, bem poderia pintar seus olhos… A alma dele era uma garoa sem fim, mas ela aprendera a enxergar ali.
Saiu da galeria, radiante por descobrir que, pouco antes de morrer, Modigliani vencera um concurso de pintores com um retrato da sua amada Jeanne e seus olhos azuis perfeitamente desenhados… Sim, ele tinha conseguido compreender sua alma!
Cantarolou, sob um céu de liberdade compreensiva, ‘La Vie En Rose’, de Édith Piaf: “Voilà le portrait sans retouche/ De l’homme auquel j’appartienst/ Quand il me prend dans ses bras/ Il me parle tout bas/ Je vois la vie en rose!” (Aí está o retrato sem retoque/Do homem a quem eu pertenço/Quando ele me toma em seus braços/Ele me fala em sussurros/ Eu vejo a vida em cor-de-rosa!).
A garoa cessou. Ele tinha visto a alma dela… e ela também compreendeu tudo bem melhor.
  • – Flávia Bernardi

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