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Mostrando postagens de fevereiro, 2020

6 ANOS DE CACHINHOS DOURADOS

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E de repente ela fica banguela e aquela janela abre pra mim uma certeza quase desconcertante: ela cresceu! Uma simples janelinha, aos 6 anos de vida, vai dando espaço para um mundo novo nascer junto com o dente. Aquele bebê, que um dia também me surpreendeu com seus fios de cabelos tricolores – deixando as enfermeiras da maternidade questionando-se se havia salão de beleza no céu – agora me surpreende com seu jeito crescido, com seu sabor agridoce de menina-moleca… E vai abrindo janelas em mim também, ensolarando meu coração (sempre aflito de mãe), quando me surpreende (e encanta!) dizendo que foi o Monteiro Lobato quem criou o rinoceronte chamado Quindim, no Sítio do Pica-pau Amarelo; que nossas lágrimas são salgadas, talvez, porque bebemos água e usamos sal pra fazer comida; que os bebês lontras aprendem a nadar só porque suas mães sabem a hora certa de dar um mergulho e deixá-los sozinhos; que está em dúvida se quer ser bióloga marinha ou bióloga jurássica quando crescer… V...

IDENTIDADE

Tudo tem um nome. Tudo pode ser chamado. Mas não chamado de qualquer jeito… tem que ter uma história. Porque não se trata nada e nem ninguém de forma desrespeitosa. Ao menos deveria ser assim. Eu, por exemplo, até pouco tempo atrás era chamado por um nome que não era meu. Que não era eu. Quando eu pensava ‘epistemologicamente’ me deparava com um precipício: como quando se para à beira da estrada e se fica a contemplar a paisagem, sem saber ao certo para onde olhar… e o horizonte não tem nome, cada nuvem dissipa e modifica as histórias. E o céu é grande demais, infinito demais. Não se consegue acalmar a alma frente à imensidão, muito menos nomeá-la. E este foi o precipício que veio agregado à minha certidão: ganhei um nome, simplesmente, para livrar alguém de uma enrascada. Baita enrascada, diga-se de passagem… Escreveram no meu registro um código gráfico que nada tinha a ver com meu DNA. E carreguei esta estranheza boa parte da vida. Talvez por isso que tantas vezes não respondia quan...

NOS TRILHOS DA INCOMPLETUDE

Se não estiveres lá quando as portas se abrirem é porque estou no lugar errado.  Falta ainda atravessar o rio. Sobrava mais de hora antes da chegada do trem, naquela estação pitoresca que tinha as paredes cinza e um certo aroma de perder a hora. No bilhete esbranquiçado, o ’11h PM’, horário da partida, parecia brilhar em neon e a música começou a tocar sem parar na sua cabeça: “Se eu perder esse trem, que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã…”. Mas de onde vinha aquela sensação de que alguma coisa daria errado? Ela imaginava que o trem passaria sem parar, ou que as portas não abririam à sua frente, ou ainda que o bilhete, seguro em suas mãos, seria carregado por uma rajada de vento – apesar da calmaria absoluta, que não mexia nem as folhas das árvores. O vento das incertezas singulares é implacável: não para nunca de soprar e assoviar desvarios. Colocou a passagem no bolso, para garantir. Talvez nem fosse o receio de perder o trem, mas sim de sentir-se perdida (ou n...

DÊ-ME SEMPRE A SUA MÃO!

Longe de tudo, mas mais perto do que nunca. Quando nos afastamos um pouco dá pra enxergar melhor… dá pra ver até de olhos fechados. Observava as telas de Amedeo Modigliani e reparava nos olhos vazados da maioria das figuras pintadas nelas. Ficava imaginando como ele podia enxergar o mundo com aquele olhar… afinal, dizem, retratamos a vida exatamente da forma como a percebemos. A partir desse pintor expressionista, que nasceu na Itália e elegeu Paris pra viver sua arte, criou-se a expressão ‘olhos de Modigliani’ – já que na maioria das vezes, ele pintava, nos rostos alongados, olhares vazios ou apenas borrões. Uma das tela chamava sua atenção especialmente, e ela não cansava de sentar à sua frente, durante um bom tempo e ficar imaginando as circunstâncias daquela pintura: observava-a com a mesma delicadeza que sentia-se desafiada pelo enigma de cada traço. Durante sua estada em Barcelona, naquele dezembro inesquecível (esperando o novo ano chegar… décadas novas são mágicas, a...

SEM (mais) ANOS DE SOLIDÃO

“Para mim bastaria estar certo de que você e eu existimos neste momento.” (Gabriel García Márquez) Olhavam juntos para aquela foto batida no Observatório La Silla, no deserto do Atacama, no Chile, que mostrava um momento mágico: um pouco antes da Lua eclipsar totalmente o Sol, um ‘anel de diamante’ pode ser visto no céu… um céu que se dividiu em dia e noite: numa cena fantástica, dessas que distorce nossa percepção da realidade. “A solidão em si mesma não deveria fazer sentido algum quando somos tantos neste calhau a contar do sol”, disse o estranho que estava ao seu lado, provocativo, talvez embriagado com aquela beleza toda… “Devia ser proibida!”, arrematou taxativo. De fato, como alguém podia sentir-se mal ou sozinho se estava vivo e em movimento debaixo daquele universo imenso? Se tinha alguém ao lado da cama, ao lado da mesa de trabalho, da poltrona do cinema? Mas não era simples assim, ela pensou… existe algo maior que chega, de repente, e denuncia vazios inexplicávei...

SIM, FEITIÇO!

E eles, que se perdiam contando histórias, não sabiam como derrubar aquele muro… O feitiço da paixão transcenderia às amarras da cultura? Passamos por Leipzig, na extinta República Democrática Alemã e seguimos para Berlim. Conduzíamos um grupo de atentos turistas – que nem imaginavam o quanto nos sentíamos perdidos naquelas alturas da viagem… Entre passaportes, passeios e passagens, estávamos nós dois, agora, sem saber o que fazer com o sentimento que vinha brotando desde nossa primeira troca de e-mails (seguida de centenas de outros em que, aos pouquinhos, desnudaram nossa alma!). Eu brincava com ela que me sentia o personagem do Anthony Hopkins, no filme ‘Nunca te vi, sempre te amei’, esperando seus sinais, que ensolaravam minha sala até então um tanto sombria (na verdade, confesso, nem tão sombria assim… apenas sem a existência daquele conjunto de tonalidades de luzes que surgia, inédito, a cada raiar das notícias dela!). No saguão do aeroporto de Frankfurt, quando desceu as ...

ASAS DE ALINE

Olhou pra si mesmo no espelho e enxergou-se com asas: uma asa era mistério, outra era indomável. Precisava agora descobrir como se fazia pra voar assim! Nas suas tantas décadas de vida, orgulhava-se em dizer por aí que seu peito não tinha espaço para ninho algum formar-se nele: “E desde quando coração é casa de passarinho? Fomos feitos pra andar soltos e, por supuesto, pra não aprisionar ninguém.”, costumava bradar, divertido, incluindo um termo em espanhol – idioma que ele apreciava, mas não tinha a mínima fluência. Dizia isso como se os afetos fossem sabiás, que se aninham nas soleiras das janelas, cantam antes que o sol nasça e, apesar desse espetáculo todo, algumas pessoas ainda reclamam da presença deles. Ele era uma dessas pessoas, até poucos meses atrás… enxergava só a sujeira do ninho, ouvia só o incômodo de ser acordado antes da hora, sendo incapaz de ver a natureza dando asas ao pensamento daqueles que admiram o voo, o canto e a vida através do pássaro. Porém, desde que ...

A MENINA E O MAR

Se apenas carcaça ou um lindo peixe, se uma história de amor ou apenas linhas borradas… Cada um decide o destino final que será dado àquilo que viveu! E ali, frente a frente com o mar, num tête-à-tête sincero, resolvera por um fim na situação que atulhava seus olhos de areia… e queria que as águas fossem o palco desse desfecho. Desde menina amava o cheiro de maresia, o frenesi quando a areia beija a sola do pé, a sensação de liberdade que se tem com o vai e vem das ondas. Dizia que o mar era dela e ela era do mar: “fomos feitos um pro outro!”, costumava repetir!! Sabia que as cartas, única coisa que restara daquela história, precisavam ir pra fogueira, serem rasgadas ou jogadas ao mar. Eram apenas folhas de papel, mas pesavam como chumbo nos seus bolsos de seda durante esse tempo todo… e as linhas que arrematavam suas costuras eram frágeis, ela sempre soubera. Não dava pra viver a vida segurando o que pesa tanto, o que sinaliza que está prestes a romper. Cada linha escrita à mão...

VEM COMIGO!!

Todo dia, no mesmo horário, ouvia o apito do trem… Não conseguia enxergá-lo, mas dava pra sentir o cheiro denso da fumaça cinza. Até que ela chegou… Ela mexia comigo de um jeito perturbador. Falava dos meus modos como ninguém falara até então: “Por que guarda essa caneta aí? Por que está sempre com as mãos nos bolsos? Quem escolhe suas roupas? Quem cuida do seu cabelo? Pra que falar assim, tão formal, se estamos no meio da praça?” Ela não entendia porque aquela postura tão rígida era minha vestimenta habitual. Desde cedo precisei proteger minhas fragilidades com essa espécie de armadura demodê que ostento agora. Não me orgulho, apenas visto. Fui pequeno com ansiedades grandes; fui jovem com desorganizações antigas. Busquei, no pátio do terreno circense que cresci, inspiração para me fantasiar quando fosse preciso. Minha casa tinha rodas, a cada hora estava num lugar, e assim precisei me despedir quando nem queria, acenar quando as mãos ainda estavam no bolso, sentir as chuva...

QUANDO VOCÊ PARTIU

Era domingo de manhã e quando tocou o telefone lembro de ter olhado para o céu e entendido na hora: ele tinha morrido! As pedras da calçada, que circulavam a casa, pareciam não acabar nunca… geralmente ia pulando amarelinha nelas, na minha infância espavitada, evitando o rejunte para não ‘morrer’ e conseguir chegar no Céu – escrito de giz em letra de forma… mas naquele dia, chegar lá era o que eu menos queria! Apesar da pouca idade, peguei minha mãe no colo, quando entrei no quarto, após eu mesma adivinhar a notícia: sim, eu já sabia, ele tinha morrido! Acho que disse isso numa tentativa de poupá-la de precisar pronunciar a fatídica frase que confirmava a morte… (ela estava tão frágil naquele momento que até hoje, se fecho os olhos, ouço o som daquele seu sussurro sem fim!). A viagem até à cidade vizinha pareceu durar horas… 42 quilômetros feitos a passos de formiga com uma grande folha nas costas!! Mesmo assim não deu tempo para adivinhar ao certo o que teria acontecido: de que...

DESCONCERTANTE: O CONCERTO SEM NARCISO

Lembrou do modo gélido que ele abraçava e entendeu: Narciso não sabe abraçar o outro porque só enxerga os próprios braços. Ela olhou mais uma vez o relógio e nada dele. A orquestra parecia se apressar em executar todas as canções que faziam o corpo dela balançar suave e ritmado. Entrou cuíca, surdo, pandeiro; entrou percussão, vozes e flauta doce … só não entrava ele. Era incrível como alguém podia perder aquele espetáculo a céu aberto: já que pra maioria das coisas não se tem replay. Ela pensou quais poderiam ser os motivos para alguém abrir mão de um encontro assim tão mágico… Medo? Desinteresse? Fuga? Indiferença? Sabia ele os movimentos que ela fazia para poder encontrá-lo? As horas que viajara para estar ali assim: livre e afoita pela sua chegada? Entendeu que a mágica das horas estava apenas no pulso dela: para ele era apenas mais um momento do seu dia (como se a orquestra inteira se vestisse de gala e saísse de casa a cada nascer do sol, diariamente). Ela lembrou de uma...

OÙ EST LA REINE?

A vida é um jogo. Se no início dela alguma peça some, abrupta e traumaticamente, seguimos capengas… De sujeito livre, passei a ser refém das tuas leis e caprichos. Passei a me preocupar com horários, a decodificar mensagens, a ser invisível. Passei a ser outro. Um outro. O outro nas minhas fantasias. Deixei de ser eu. Ando pela rua te procurando entre os rostos anônimos que olham pra mim, e fico pensando se eles tambem estão procurando alguém, como eu estou… O semáforo que fecha lembra teu sinal vermelho: e eu avanço temeroso, quando a luz verde acende, como se tivesse medo de causar um acidente. Ontem, quando deixei o trabalho, avistei um menino franzino e assustado, que me remeteu ao passado. Na hora lembrei da festa da adolescência, em que eu esperava a menina dos meus sonhos chegar e ela nunca vinha… Dançava com outras, que só aguçavam a lembrança do seu cheiro: os movimentos sem ritmo denunciavam um desencaixe. Ela era a peça que faltava daquele jogo que nunca teria fim… ...

SEU NOME É A SENHA PARA ENTRAR!

Alívio em viver onde tem portas pra cada um entrar no seu mundo de vez em quando. Dá pra espiar pelo buraco da fechadura, dá pra ter a intimidade assegurada… dá até pra sonhar sem sobressalto! Ela chega aflita, contando um sonho que teve ontem com uma casa sem portas. Seca a fronte, acomoda-se e segue falando da viagem onírica que lhe acordou quando ainda era madrugada: as cortinas, que faziam as vezes de portal, não impediram a entrada de um caçador violento que, com urgência, arrancava-lhe o coração e uma parte das longas madeixas negras e onduladas… Narrava o sobressalto que a despertou e, sem se dar conta, colocava novamente uma das mãos no cabelo e a outra no peito: ufa, estava tudo ali! Mas o coração seguia batendo apressado com a ideia de alguém surgir num repente e, sem nenhum obstáculo, ter acesso a ela. “Imagina como deve ser horrível isso acontecer de verdade….”, falou, e pensativa seguiu: “Será que às vezes também faltam portas aqui em mim e eu possibilito ataques assi...

SE AO MENOS VOCÊ SOUBESSE…

É fácil partir. Difícil mesmo é deixar pra trás aquilo que complementa a alma. Mas uns, corajosos ou temerosos, partem mesmo assim. Inevitáveis partidas para seguir vivendo. “Não se dispensa uma musa por capricho…”, foi a última coisa que ele escutou da boca dela, que parafraseava a personagem de Nick Bantok e quase duvidava que ele fosse. Mas ele partiu, mesmo assim. Fugir de tudo aquilo era a única possibilidade que via no seu céu: tão angustiado quanto enluarado. Fechou a porta com calma, segurando por uns instantes a maçaneta. E foi. Será que ela seguia colocando pimenta no omelete matinal? Será que ainda tinha a cabeça na lua? Será que sua boca seguia sorrindo mesmo quando não ria? Será que ela pensava nele? A distância parece embaçar a visão, porque de fato o objeto some de vista… e ele seguia torcendo que, ao esfregar o olho ou limpar a lente do óculos, plum!, ela estivesse ali de novo. Só que não, ele esticava a mão pro lado da cama e seu colchão de solteiro seguia end...

UM SAMBINHA ANTES DE VIRAR A ESQUINA

Esquinas são antecessoras do encontro, quase uma surpresa… a alguns passos antes da esquina fica justamente a possibilidade da imaginação seguir reinando: ‘O que vou encontrar ali?’. Depois a realidade irá se impor. Aquele evento trouxe as chaves para pensamentos diversos. Enquanto falavam sobre encontros e desencontros, a plateia, atenta, certamente lembrava de capítulos vividos (afinal, difícil alguém não ter algo que venha à tona nessas horas!). As expressões faciais eram diversas, emanando segredos, planos, divagações… e quando Vinícius de Moraes ecoou na sala, com a arte do encontro musicada, deu impressão que os corações entraram no mesmo compasso: batendo afinados com o samba que benzia! Ele passeava elegante pelos clássicos da literatura; ela, de alma leve, poetizava Sigmund Freud. Ele citava, orgulhoso, a irmã de sangue, também poeta, e tratava Fernando Pessoa como se fosse um parente, dada a familiaridade e o conhecimento; ela contava sobre seu reencontro com Manuel de...

LEVE-ME PARA A LUA OU LEVE-ME DE VOLTA PRA CASA!

Tem horas que alguém acena na outra margem do rio e a travessia exige bem mais que uma mão para nos acompanhar…  Estávamos nós duas sentadas debaixo de um pé de laranja-lima e ela confidenciou baixinho seus temores em apaixonar-se por outro. “A paixão sempre pode surgir, mansa ou arrebatadora, quando as trocas fluem fáceis”, balbuciou, virando-se de repente para mim. Até então falávamos futilidades, ríamos solto, sem nem ter ideia do tempo que já estávamos ali. Amigas desde sempre, sabíamos bem escutar os anseios uma da outra. Percebi nos olhos dela um misto de desejo e tensão, sem entender bem se era maior a dor ou o encanto. Há mais de duas décadas com aquela aliança, nunca passara pela sua cabeça retirá-la do dedo. Mesmo os amores maduros, frutos de relacionamentos sólidos, podem ficar afetados pela necessidade que o coração tem de bater um pouco mais forte às vezes, tamborilando num ritmo outro. A laranja também é meio lima e vice-versa… a natureza, sem maldade ou pervers...