SIM, FEITIÇO!

E eles, que se perdiam contando histórias, não sabiam como derrubar aquele muro… O feitiço da paixão transcenderia às amarras da cultura?


Passamos por Leipzig, na extinta República Democrática Alemã e seguimos para Berlim. Conduzíamos um grupo de atentos turistas – que nem imaginavam o quanto nos sentíamos perdidos naquelas alturas da viagem… Entre passaportes, passeios e passagens, estávamos nós dois, agora, sem saber o que fazer com o sentimento que vinha brotando desde nossa primeira troca de e-mails (seguida de centenas de outros em que, aos pouquinhos, desnudaram nossa alma!). Eu brincava com ela que me sentia o personagem do Anthony Hopkins, no filme ‘Nunca te vi, sempre te amei’, esperando seus sinais, que ensolaravam minha sala até então um tanto sombria (na verdade, confesso, nem tão sombria assim… apenas sem a existência daquele conjunto de tonalidades de luzes que surgia, inédito, a cada raiar das notícias dela!).
No saguão do aeroporto de Frankfurt, quando desceu as escadas e enxerguei-a pela primeira vez, trouxe consigo uma fragrância inebriante. Acho que a paixão sempre vem acompanhada de um cheiro doce, de um perfume de flor misteriosa… que nos deixa balançando a cabeça, procurando frouxos, como se para perceber melhor de onde o aroma vem; e, de repente, nos damos de cara com a pessoa que tem cheiro de feitiço e querer.
Fiquei com o olhar tão estatelado frente a ela, naquele início de noite perfumado, quanto estava agora, frente ao lugar que um dia recebeu o famoso Muro de Berlim… Bem ali, frente aos meus olhos (e por uma extensão de mais de 100km) construiu-se, nos anos 60, uma muralha que separou pensamentos, ideologias, famílias e amores. Tive a impressão de escutar os sons das marretadas que o destruíram, exatos 30 anos atrás, quando os dois lados puderam se unificar novamente. Era o fim da Guerra Fria e lembrei que por décadas aquela divisão marcou o globo e suas relações… e agora nossos muros também causavam uma cisão: existe uma impenetrável parede entre judeus e árabes, Israel e Palestina – lugar onde nasci e vivo até hoje.
Em Berlim, primeiro o muro foi construído com arame farpado, depois com concreto, e por último – e em definitivo, construíram um muro ainda mais robusto, com torres de segurança, guardas e cães, para proteger sua vasta extensão.
Tão dificil assim conter aquilo que quer escapar? – pensava eu, olhando fixo para o chão. Certamente era mais fácil conter a população que queria fugir para o outro lado que prender a paixão que nos arrebatava…
O grupo seguia animado tentando, como a maioria que pisa ali, encontrar marcas daquele primitivo separatista… é inevitável ir a Berlim e não ficar procurando o passado: mas nesses escombros, pode-se achar tijolos do muro e também pedras próprias, que a cultura amarra, ao nascermos, no calcanhar (e aprendemos a andar como se elas fizessem parte da nossa anatomia). O anterior sombrio bem poderia ter deixado raízes que promovessem uma política de boa vizinhança, mas não era o nosso caso: ela, tinha Israel; eu, tinha a Palestina… e ambos não víamos chances de ter nada novo nos nossos mapas, nem nossos destinos unificados.
Quantos muros construídos, nos separando daquilo que queremos e não podemos ter… alguns necessários, organizando desejos que nascem selvagens e sem direção, precisando de barreiras que os contenham; outros, irrelevantes e desnecessários, só causam desconforto, saudade e solidão.
Sonhei escalar o muro, rasgar o alcorão, raptá-la e iniciarmos uma nova vida num lugar onde os muros separem apenas o jardim do passeio público. Sonhei construir uma casa para nós, bem ali na divisa da antiga muralha, metaforizando o fim das barreiras intransponíveis. Sonhei com as chaves dos cadeados todos, sonhei que fui decapitado, exilado, que ela chorava a perda dos filhos por aceitar viver comigo, sonhei também que flanávamos todos nós, livres e sorridentes… Um sonho me dava asas, outro me acorrentava à vida. Acordado, era difícil me imaginar vivendo e sabendo que o coração dela batia logo ali do outro lado da parede.
Seguimos viagem. Seguimos apaixonados. Mas seguimos pra casa. Não se arranca a fórceps nem a cultura, nem o desejo… Nos deixamos partir com a promessa do reencontro: quando der pra deixar a Palestina sem sensação criminosa. Enquanto isso, planejo (e sonho) viver sem muros, sem convenções, sem hipocrisias ou ditaduras… Sonho em viver inebriado pelo frescor que discursa por muralhas depostas.
Sonho com um feitiço!
– Flávia Bernardi

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