CINCO SÍLABAS
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CINCO SÍLABAS
16/02/2020
Ele fez poesia métrica silabando seus nomes.
Ela fez um mapa psíquico da paixão.
Ele acordava lembrando dela.
Ela dormia pensando nele.
Ele cortou o cabelo para agradá-la.
Ela achou que o coração não cabia mais no peito.Fizeram trilha sonora, planos, ensaios.
Combinaram viagens, cinemas, bebedeiras.
Dividiram segredos, sonhos, gostos.
Acharam a alma gêmea.Ele tinha o timbre edípico do tio dela.
Ela era do signo do seu antigo amor.
Ele trazia a maturidade e a disciplina.
Ela, a liberdade em forma de gargalhadas.Riram, andaram de foguete,
tiveram perrengues,
colocaram o ritmo cardíaco à prova.
Dançaram juntos à distância,
tomaram chá do Che Guevara,
sentiram arrepio quando o pé dela alcançou a perna dele.Ela sabia desde o início que se apaixonariam
Tentou frear e ele atirou mais uma pedrinha.
Ela abriu a janela. Voltou a sorrir.
Ele adoeceu. Quis viver.
Tentou parar e ela se desculpou.
Ele sabia desde o início que iriam se apaixonar.Não deu tempo dela contar o sonho que teve antes de conhecê-lo,
nem seu trauma com idiomas,
nem fazer uma serenata.
Ele não lhe apresentou sua cafeteria,
nem lhe emprestou seu livro precioso,
nem lhe abraçou embaraçando seus cabelos.Ela escreveu uma carta de despedidas.
Ele entendeu e respirou aliviado.
Ela cruzou os dedos para que ele seguisse gargalhando.
Ele balançou a cabeça, como sempre, entendendo que era o fim.Porque paixões não tem alvará
de localização nem de acontecimento.
Ainda mais aquelas que ressignificam
as doces paixonites do jardim da infância.– Flávia Bernardi
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