EM TEMPOS DE PANDEMIA: A palavra como antídoto para as angústias
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
EM TEMPOS DE PANDEMIA: A palavra como antídoto para as angústias
11/04/2020
Entre tantas outras coisas, aprendemos: quando podemos falar sobre o que sentimos, fica até mais fácil sentir!
Como pode um ser vivo invisível ter tamanho poder de destruição e causar uma brusca mudança no mundo? Talvez, justamente pelo fato de não ser visto, o tal COVID-19 se alastrou e trouxe, junto consigo, o medo. Sem podermos enxergar o perigo, o ‘inimigo’, tudo fica ainda mais assustador… basta lembrar dos filmes de terror ou suspense, onde o perigo invisível das piores cenas é o mais apavorante – e suficiente para fazer o espectador tremer.
Vieram as medidas de proteção, os decretos e em poucos dias, de maneira violenta e abrupta, tivemos que reinventar nossas vidas. Não resta dúvida que estamos todos vivendo uma situação traumática, invadidos por angústias e situações difíceis de compreender. A Psicanálise, além de defender teoricamente o inconsciente (e a importância de tudo aquilo que não se vê!), também nos ensina que, em momentos de abalos psíquicos, o ser humano utiliza-se de mecanismos de defesa para poder sobreviver e achar saídas. E vemos que essa situação angustiante, a que estamos submetidos, desperta reações interessantes em cada um: alguns recorrem à negação e tentam viver subestimando o perigo da pandemia; outros, ao contrário, projetam futuros de catástrofe e utilizam medidas radicais (severos rituais de limpeza e esterilização, não saem de casa para situação alguma e temem qualquer contato); outros ainda distraem-se com piadas em grupos de WhattsApp, cantam na sacada, fazem ginástica online, aprimoram dotes culinários…
Enfim, nesse não saber exatamente o que vem pela frente, cada um tenta se proteger psiquicamente da melhor maneira que consegue… driblando a manchete que, dia após dia, anuncia, em alto e bom tom, que “o pior ainda está por vir!”. Esse vírus, invisível (mas não tão silencioso assim) nos mostra que na natureza existem forças mortíferas, incontroláveis e potentes, que nos abatem sorrateiramente. Sigmund Freud teceu o termo Pulsão de Morte para exemplificar essa energia que, silenciosamente, faz o sujeito tender para o mortífero. E entre o medo de morrer e o medo de não ter dinheiro para viver, fica a ideia de morte ‘coroada’ e mui viva entre nós, assombrando nossos dias com os fantasmas que vivem dentro e fora de cada um.
Estamos sujeitos a sofrer perdas humanas e perdas econômicas, mas certamente todos já sofremos com as perdas das nossas certezas e da nossa “imaginária” segurança: nunca pensamos poder perder as rédeas de nossas vidas, ver nossa liberdade tolhida e nos enxergar tão vulneráveis e suscetíveis… Fomos convocados a encarar de frente nossas limitações, nosso desamparo e, principalmente, que não temos o total controle da vida.
Para nos mantermos vivos psiquicamente precisamos acreditar que somos capazes de lidar com o que a vida nos apresenta: a morte, a angústia, a solidão, o medo…
A indicação para proteger-nos do Covid-19 é o isolamento social, mas a necessidade psíquica que mais sentimos nesse momento é o contato. Primeiro com nós mesmos e nossos sentimentos; mas também com alguém que não nos contamine negativamente, que nos escute e acolha: alguém que nos ajude a encontrar palavras para nosso sofrimento.
E as palavras surgem, então, como eficaz possibilidade de suportar o peso das coisas do mundo. Quando podemos verbalizar, além de um alívio, também produzimos a construção de um espaço para a imaginação: e lá, no imaginário abstrato de cada um, o terreno para refúgio, para criatividade, para sentirmo-nos amparados é muito mais amplo. A palavra, que nos permite simbolizar e, até mesmo, ressignificar fantasmas, é um grande aliado para a saúde mental.
A indicação para proteger-nos do Covid-19 é o isolamento social, mas a necessidade psíquica que mais sentimos nesse momento é o contato. Primeiro com nós mesmos e nossos sentimentos; mas também com alguém que não nos contamine negativamente, que nos escute e acolha: alguém que nos ajude a encontrar palavras para nosso sofrimento.
E as palavras surgem, então, como eficaz possibilidade de suportar o peso das coisas do mundo. Quando podemos verbalizar, além de um alívio, também produzimos a construção de um espaço para a imaginação: e lá, no imaginário abstrato de cada um, o terreno para refúgio, para criatividade, para sentirmo-nos amparados é muito mais amplo. A palavra, que nos permite simbolizar e, até mesmo, ressignificar fantasmas, é um grande aliado para a saúde mental.
Talvez venha mesmo o pior, não sabemos; mas precisamos reencontrar o nosso melhor para lidarmos com esse amanhã incerto, para termos esperança que nossas ações prudentes achatem a tal curva de contaminação, para encontrarmos saídas… Que nesse momento de receios de que, entre tantas outras coisas, também nos falte o ar para viver, possamos ventilar a vida dentro de nós: transformando nossas angústias em palavras e assegurando o fôlego para seguirmos em frente.
– Flávia Bernardi
Em parceria com a querida
amiga e colega Paula C. Triches*
Em parceria com a querida
amiga e colega Paula C. Triches*
* Paula é psicóloga e psicanalista. Membro do Centro de Estudos Psicanalíticos – CEP de PA/Serra:
“Tenho encontrado, através da escrita, uma forma de transmitir um pouco da realização que tenho em estudar psicanálise, uma das minhas paixões… Assim como estar com minha família, amigos, viajar e correr, ser psicanalista é algo que me completa e me faz bem!”
Este texto foi publicado, resumidamente, na sessão ARTIGOS, do Jornal Pioneiro, na edição 13.772 (11 e 12 de abril de 2020).
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários
Postar um comentário