SEU NOME É A SENHA PARA ENTRAR!
Alívio em viver onde tem portas pra cada um entrar no seu mundo de vez em quando. Dá pra espiar pelo buraco da fechadura, dá pra ter a intimidade assegurada… dá até pra sonhar sem sobressalto!
Ela chega aflita, contando um sonho que teve ontem com uma casa sem portas. Seca a fronte, acomoda-se e segue falando da viagem onírica que lhe acordou quando ainda era madrugada: as cortinas, que faziam as vezes de portal, não impediram a entrada de um caçador violento que, com urgência, arrancava-lhe o coração e uma parte das longas madeixas negras e onduladas… Narrava o sobressalto que a despertou e, sem se dar conta, colocava novamente uma das mãos no cabelo e a outra no peito: ufa, estava tudo ali! Mas o coração seguia batendo apressado com a ideia de alguém surgir num repente e, sem nenhum obstáculo, ter acesso a ela. “Imagina como deve ser horrível isso acontecer de verdade….”, falou, e pensativa seguiu: “Será que às vezes também faltam portas aqui em mim e eu possibilito ataques assim? Permito que levem meu coração sem resistência? Que a selvageria alheia arranque meus cabelos alinhados e macios?”. Pensar nisso levou-a para longe dali, tive a sensação…
Fiquei pensando também eu, em como seria viver assim… tendo apenas uma cortina pra separar tudo: sem portas! Como se faria pra chorar sossegado, pra respirar aliviado, pra viver entre 4 paredes se uma delas tivesse uma ‘fenda’?
Na casa da minha avó paterna era assim… mas não lembro de ter dormido lá um dia. Na casa dos parentes do interior – que trazem um baú repleto de boas lembranças – também era… E lembrei da gente passando correndo, se enrolando nas cortinas coloridas e, vez que outra, nos deparando com um tio roncando, uma tia trocando de roupa ou um bolo escondido numa despensa bagunçada (o que possibilitava roubar um pedacinho antes de esfriar e surgir no cenário… porque cortinas também lembram palco, e que, quando abertas, apresentam o espetáculo!).
Na casa da minha avó paterna era assim… mas não lembro de ter dormido lá um dia. Na casa dos parentes do interior – que trazem um baú repleto de boas lembranças – também era… E lembrei da gente passando correndo, se enrolando nas cortinas coloridas e, vez que outra, nos deparando com um tio roncando, uma tia trocando de roupa ou um bolo escondido numa despensa bagunçada (o que possibilitava roubar um pedacinho antes de esfriar e surgir no cenário… porque cortinas também lembram palco, e que, quando abertas, apresentam o espetáculo!).
Interessante pensar nessa antiga cultura em que se imaginava ser desnecessário fechar a maçaneta pra (também) viver… Instigante pensar nesse mundo onírico onde não existem portas e os personagens tem permissão para coabitarem todos os cômodos, livres, sem impedimento ou censura. Sonhos são aviõezinhos de papel, que quando bem feitos, voam facilmente: sem combustível, sem motor, sem engenharia… apenas algumas dobras os colocam no ar! “As produções do trabalho do sonho não são feitas com a intenção de serem entendidas”, já dizia Sigmund Freud, no seu maravilhoso texto ‘A Interpretação dos Sonhos’. As dobraduras que o psiquismo faz são mais geniais que origamis!
E surgem desdobramentos, onde se pode pensar nas vezes que desejamos voltar no tempo e contar apenas com as cortinas: pra não escutar um adolescente bater a porta ao ouvir um não, nem correr o risco de encontrá-la fechada, após uma discussão ferrenha… não teria porta, nem chave, nem possibilidade de nada disso! O que nunca existiu, não faz falta! Não tem como lamentar a ausência de algo que nunca esteve ali… meus antepassados nunca devem ter sentido falta da porta então, já que nunca a tiveram. Pra eles a vida era assim: uma privacidade que tinha que ser conquistada de algum outro jeito que não a chaves! (Talvez seja preciso ter a certeza de se estar protegido, com ou sem portas… esse é o mapa do tesouro!)
Às vezes se quer proximidade e aconchego, tempo para o afago, para ficar junto e ter certeza que o outro está ali. Se a porta fecha (com o outro do lado de fora) abre a dúvida: “Se eu ficar, você não vai ouvir meu coração? Se eu ficar sozinho as sombras esconderão as cores do meu coração? Azul para as lágrimas, preto para os medos da noite…”, como canta Rod Stewart, em ‘I Don’t Want To Talk About It’. Se a porta existir e estiver fechada, como você escutará que estou chamando seu nome, como você ouvirá meu coração? Sentirei falta de lhe ver me vendo…
Pra Nelson Rodrigues, seria o fim não ter buraco de fechadura para espiar suas histórias… e nós padeceríamos sem ter acesso as suas incríveis criações, que nasceram exatamente por ele ter tido a audácia e a genialidade de dar-lhes forma de textos: mostrando tudo aquilo que enxergou por lá, por detrás desse portal humano. “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”, disse ele, dando total prova de que sim, precisamos mesmo de portas!
E, na intimidade de nosso vínculo e portas bem fechadas, ela pos mais uma vez as mãos nos cabelos e disse (capturando-me também dos meus devaneios), depois de um longo silêncio e já não mais tão aflita: “Acho que o caçador era ele… esse homem proibido que eu desejo tanto que anuncie escancaradamente a urgência que tem em me ver… lá no fundo desejo ardentemente que arrombe a porta ou rasgue as cortinas… que adentre meu quarto, me corrompa e sequestre dali, por uma noite que seja… que me ame com selvageria e sacuda minha rotina tão bem estabelecida. Sei o nome do caçador e agora já não me aflige mais falar disso!”
Quando as coisas ganham um nome, também ganham ‘portas’: que as protegem dentro da fantasia, esse teatro privado e seguro do nosso mundo psíquico. Sonhos são para ser sonhados, não vividos… os ‘caçadores’ (quase) nunca cabem na vida real.
Cabelos penteados, coração no peito, caçadores nominados, porta fechada… dava pra seguir tranquila e protegida vivendo sua novela doméstica!
– Flávia Bernardi
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