DESCONCERTANTE: O CONCERTO SEM NARCISO
Lembrou do modo gélido que ele abraçava e entendeu: Narciso não sabe abraçar o outro porque só enxerga os próprios braços.
Ela olhou mais uma vez o relógio e nada dele. A orquestra parecia se apressar em executar todas as canções que faziam o corpo dela balançar suave e ritmado. Entrou cuíca, surdo, pandeiro; entrou percussão, vozes e flauta doce … só não entrava ele. Era incrível como alguém podia perder aquele espetáculo a céu aberto: já que pra maioria das coisas não se tem replay.
Ela pensou quais poderiam ser os motivos para alguém abrir mão de um encontro assim tão mágico… Medo? Desinteresse? Fuga? Indiferença? Sabia ele os movimentos que ela fazia para poder encontrá-lo? As horas que viajara para estar ali assim: livre e afoita pela sua chegada? Entendeu que a mágica das horas estava apenas no pulso dela: para ele era apenas mais um momento do seu dia (como se a orquestra inteira se vestisse de gala e saísse de casa a cada nascer do sol, diariamente).
Ela lembrou de uma das primeiras coisas que ele lhe falou quando se conheceram: era um narcisista! Na hora pareceu ser apenas um gracejo: uma dessas coisas que se fala no início do jogo da conquista para arrancar um sorriso ou soar inusitado… mas era verdade. O vazio daquele desencontro mostrava o quão pesado era servir de lago espelhado para o outro se admirar e comprovar a própria existência.
Ela sentiu vontade de cantar, na voz da Gal, a música do Roberto, Sua Estupidez: “Meu bem, use a inteligência uma vez só, quantos idiotas vivem só, sem ter amor, e você vai ficar também sozinho…”. Mas hesitou: sozinha estava ela… e assim ficaria se optasse por seguir ali esperando que ele surgisse e enlaçasse a sua cintura, surpreendentemente. Desde quando Narciso abre mão da sua imagem para reconhecer alguém nos seus braços?
Ela cogitou que tudo, até ali, não passara de pura e simples fantasia sua: tinha criado uma imagem irreal, que lhe pegava no colo e ninava seu mundo… Uma miragem que parecia dar conta da sua sede de viver, da sua fome de ser, das suas carências, como bem dizia Borges: “O cristal nos espreita. Se entre as quatro paredes do aposento há um espelho, não estou só. Há outro. Há o reflexo que arma na aurora um sigiloso teatro”. (Sim, também criamos nossas ilusões!)
Farta de espelhos e abraços gelados, de presenças invisíveis e olhares egoístas, ela decidiu esquecer! A angústia da espera pesava os ponteiros do seu relógio, atava seus pés e embaralhava sua visão… Conseguiu enxergar o brilho doce e sincero das suas asas: elas eram reais e não precisavam ser tolhidas! Resolveu voltar pra casa: no ritmo do samba que ainda pairava no ar… voou! O cenário da vida é bem mais amplo que a visão diminuta de alguém que só enxerga a si mesmo e, nas suas águas, acredita, sozinho, valer por uma orquestra inteira!
– Flávia Bernardi
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