OÙ EST LA REINE?

A vida é um jogo. Se no início dela alguma peça some, abrupta e traumaticamente, seguimos capengas…


De sujeito livre, passei a ser refém das tuas leis e caprichos. Passei a me preocupar com horários, a decodificar mensagens, a ser invisível. Passei a ser outro. Um outro. O outro nas minhas fantasias. Deixei de ser eu.
Ando pela rua te procurando entre os rostos anônimos que olham pra mim, e fico pensando se eles tambem estão procurando alguém, como eu estou… O semáforo que fecha lembra teu sinal vermelho: e eu avanço temeroso, quando a luz verde acende, como se tivesse medo de causar um acidente.
Ontem, quando deixei o trabalho, avistei um menino franzino e assustado, que me remeteu ao passado. Na hora lembrei da festa da adolescência, em que eu esperava a menina dos meus sonhos chegar e ela nunca vinha… Dançava com outras, que só aguçavam a lembrança do seu cheiro: os movimentos sem ritmo denunciavam um desencaixe. Ela era a peça que faltava daquele jogo que nunca teria fim… Parece que passei a vida em busca dela, e hoje, mais uma vez, não consigo jogar nesse tabuleiro incompleto. Sigo sentindo-me um menino (que sucumbiu ao xeque-mate, descobriu que não era o Rei e perdeu a Rainha).
Outro dia, em meio a nossas discussões clandestinas, me acusaste de imaturo quando reclamei tua falta: ‘Ora bolas, onde já se viu cobrar algo que nem podes dar!’, complementaste. Mas será que eu avançaria o sinal se tivesse certeza do teu sim? Se estivesses ali do outro lado da rua à minha espera? Como se faz para pôr na mala uma vida inteira sem causar o caos?
Tu fizeste as malas, corajosa e audaciosa, como sempre… sem esperar o tempo que pedi para também partir contigo. Visionária que és, devias bem saber que eu nunca conseguiria mesmo ir embora: sabias dos meus esconderijos e temores. Sabias que eu sou o eterno garoto da peça faltante. Encontrá-la seria estragar meu jogo – devo pensar eu, num desses inúmeros becos desconhecidos aqui dentro.
Buzinam atrás de mim agora e eu não me mexo daqui. Volto a ser o menino sentado na cadeira, paralisado com as cenas à minha volta. Volto a me sentir confortável – por mais contraditório que pareça – lamentando meu azar por possuir um jogo inacabado. Volto a lugar nenhum por achar que nem tenho onde ir… e começo pensar que gosto disso.
Assisti inúmeras vezes Meia-noite em Paris, do Woody Allen, e desejei ter a mesma chance do personagem: fechar meus olhos e me reportar a um outro tempo, na vida parisiense do começo do século XX, onde parece que meus desejos caberiam melhor. Filmes são bons porque nos permitem ir longe sem ir a lugar algum… e eu pude chegar até Paris pra me encontrar contigo. O filme fala dessa vontade de estar num outro lugar, numa outra época, para poder, sem grandes esforços ou responsabilidades, ser alguém diferente do que se é: magicamente! Recordei de um ditado francês, que meu pai sempre dizia: “Plus ça change, plus c’est la meme chose” (Quanto mais se muda, mais fica a mesma coisa). Será? Quero acreditar que não… que era apenas uma forma dele justificar seu embaraço frente o desejo pela mobilidade. Começo a dar-me conta que enquanto não deitar no divã, seguirei nas andanças da minha eterna repetição: é minha peça que precisa ser encontrada… e ela não está em nenhum outro lugar além de bem dentro de mim.
Reli tuas cartas e nem posso responder: já que não sei mais teu endereço. Bloqueaste todos meus acessos. Nos desentendemos por vírgulas… e eu não conseguia entender que tu querias mais: achava que era apenas uma hipérbole quando tu falavas que desse jeito morreríamos. – Tu não quer mais?, perguntei. “- Não, eu quero mais!”, tu respondeu. Mas eu não compreendi a sonoridade da tua resposta, ouvi com minha ansiedade que come letras e tropeça nas palavras. Ouvi o ‘não’ e todo resto se perdeu: – Segue em frente, vai… sejas livre!, respondi sem pensar, sôfrego já, incompleto com o espectro da tua partida. E tu foi. E eu fiquei parado, apalermado, cheio de fantasmas… aqueles que sempre rondavam meu quarto e não me deixavam dormir! A escuridão da noite sempre me assustou.
A liberdade está atrelada à elaboração dos fatos. Capturados nos discursos dos pais, não resta muito mais que o pé no freio com o semáforo aberto. Te vi indo embora e não consegui sair do lugar, não pude te pedir pra ficar, não consegui dizer que iria também! Faltou vocabulário, não tenho acesso às figuras de linguagem para traduzir o susto que levo quando o coração pensa… e meu corpo padece, criando doenças que falam por mim: é a denúncia do tabuleiro incompleto, do menino que não tem coragem de entrar na briga e reaver seu peão.
Emito sinais de fumaça, escrevo palavras no ar, apelo pra telepatia… tento te achar pra te tirar pra dançar: – Dança comigo?
E parece que já te ouço, na voz da Marina Lima da minha infância, me dizendo, em tom de aviso e lamento: “Eu não sei dançar tão devagar pra te acompanhar”. E, dentro da minha mesmice assombrada, balanço a cabeça e concordo… porque, possivelmente, eu responderia na voz triste da cantora, confessando, ainda no mesmo ritmo da música que “…tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar…”.
Quando achar minhas peças, preencho meu tabuleiro e, inteiro, sento no terraço pra tomar um Carmenere contigo.
– Flávia Bernardi

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