ASAS DE ALINE
Olhou pra si mesmo no espelho e enxergou-se com asas: uma asa era mistério, outra era indomável. Precisava agora descobrir como se fazia pra voar assim!
Nas suas tantas décadas de vida, orgulhava-se em dizer por aí que seu peito não tinha espaço para ninho algum formar-se nele: “E desde quando coração é casa de passarinho? Fomos feitos pra andar soltos e, por supuesto, pra não aprisionar ninguém.”, costumava bradar, divertido, incluindo um termo em espanhol – idioma que ele apreciava, mas não tinha a mínima fluência. Dizia isso como se os afetos fossem sabiás, que se aninham nas soleiras das janelas, cantam antes que o sol nasça e, apesar desse espetáculo todo, algumas pessoas ainda reclamam da presença deles. Ele era uma dessas pessoas, até poucos meses atrás… enxergava só a sujeira do ninho, ouvia só o incômodo de ser acordado antes da hora, sendo incapaz de ver a natureza dando asas ao pensamento daqueles que admiram o voo, o canto e a vida através do pássaro. Porém, desde que fora invadido (ou se deixado invadir) por ela, além das notas majestosas e voos mágicos, descobrira um espaço novo dentro de si: ninhos também promovem aconchego e boas descobertas.
Porém, existem exigências de quando se voa com alguém: ele já não voava mais quando bem queria e as ausências e demoras dela produziam uma angústia nunca antes sentida… e seu coração, que nunca se mexia do peito, agora quase saía pela boca. Batia num tuntuntum apressado, tão alto que calava qualquer outro som ao redor. Então ela reaparecia, mostrava mais um bom bocado de céus e possibilidades, e toda aquela angústia anterior sumia.
Com o andar do tempo, passara a achar esse vai-e-vem muito doloroso e decidira, então, romper: vivê-la de longe e em silêncio… Apesar de seus medos, ele era sincero e intenso demais para tantas reticências e mistérios. Ele não sabia andar (muito menos voar) no escuro, nunca aprendera… ficava agoniado e assustado.
Mas como lhe avisaria disso? Como espantar esse ‘sabiá romântico’ – a quem Cecília Meireles dedicou um ciclo de poemas – e ele acabara de conhecer? Como interromper algo que ainda lhe arrancava sorrisos? Como curtir esse amor-pássaro que tem uma asa de mistério e a outra é indomável?
Imaginou uma asa encolhida, escondida, enigmática; enquanto a outra se debatia, tentando voar na sua impulsividade passional de pássaro livre… Era pra não correr o risco de ver sua imagem assim, dicotômica, no espelho das sensações, que até hoje tinha preferido deixar o coração fechado, de resguardo! Dera-se conta que pássaro era ele, isso sim; que tinha um coração tão frágil que corria o risco de parar de bater frente a um susto… protegendo-se dos sobressaltos, havia permitido que o medo vencesse o desejo de andar acompanhado.
Mas como lhe avisaria disso? Como espantar esse ‘sabiá romântico’ – a quem Cecília Meireles dedicou um ciclo de poemas – e ele acabara de conhecer? Como interromper algo que ainda lhe arrancava sorrisos? Como curtir esse amor-pássaro que tem uma asa de mistério e a outra é indomável?
Imaginou uma asa encolhida, escondida, enigmática; enquanto a outra se debatia, tentando voar na sua impulsividade passional de pássaro livre… Era pra não correr o risco de ver sua imagem assim, dicotômica, no espelho das sensações, que até hoje tinha preferido deixar o coração fechado, de resguardo! Dera-se conta que pássaro era ele, isso sim; que tinha um coração tão frágil que corria o risco de parar de bater frente a um susto… protegendo-se dos sobressaltos, havia permitido que o medo vencesse o desejo de andar acompanhado.
Há vinte e duas horas esperava por ela, no topo do morro no qual combinaram de flanar apenas sob a égide do vento… Ela não chegava, e ele estava, mais uma vez, sem notícias, sem sinal, sem entender o que causara seu sumiço abrupto e aterrador. O coração, que até então batia dentro de uma gaiola bem fechada e segura, agora estava prestes a estourar! Dera-se conta que o silêncio das sereias era muito, mas muito mais mortífero do que o canto delas (e se Ulisses não estivesse com os ouvidos tapados de cera, contaria isso a ele, modificando a cena da Odisseia!): são espaços vazios que causam as maiores explosões, são silêncios ensurdecedores que geram as maiores dores!
Asas, quando descobertas, querem voar livres. De nada valem se batem paradas (aí, apenas se debatem!). Céu e mar fazem convites inadiáveis: e a sinfonia que o sabiá entoava agora era um hino à vida que ele acabara de conhecer.
Usou as asas sábias para dar um mergulho, dançando nas notas da sereia que teria linhas na cauda e caneta-tinteiro na mão… Era lá que queria escrever sua história!
Usou as asas sábias para dar um mergulho, dançando nas notas da sereia que teria linhas na cauda e caneta-tinteiro na mão… Era lá que queria escrever sua história!
– Flávia Bernardi
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