SE AO MENOS VOCÊ SOUBESSE…

É fácil partir. Difícil mesmo é deixar pra trás aquilo que complementa a alma. Mas uns, corajosos ou temerosos, partem mesmo assim. Inevitáveis partidas para seguir vivendo.


“Não se dispensa uma musa por capricho…”, foi a última coisa que ele escutou da boca dela, que parafraseava a personagem de Nick Bantok e quase duvidava que ele fosse. Mas ele partiu, mesmo assim. Fugir de tudo aquilo era a única possibilidade que via no seu céu: tão angustiado quanto enluarado. Fechou a porta com calma, segurando por uns instantes a maçaneta. E foi.
Será que ela seguia colocando pimenta no omelete matinal? Será que ainda tinha a cabeça na lua? Será que sua boca seguia sorrindo mesmo quando não ria? Será que ela pensava nele?
A distância parece embaçar a visão, porque de fato o objeto some de vista… e ele seguia torcendo que, ao esfregar o olho ou limpar a lente do óculos, plum!, ela estivesse ali de novo. Só que não, ele esticava a mão pro lado da cama e seu colchão de solteiro seguia endurecendo a realidade: não tinha (e nem cabia) ninguém ali.
Será que ela ainda passava a mão no cabelo quando ficava sem jeito? Será que ainda passeava com os cachorros antes do almoço? Será que ainda gostava de branco? Será que ela ainda lembrava dele?
Já fazia tempo que entrara naquele ônibus sem olhar pra trás: temia que a coragem terminasse. Encontrar-se consigo mesmo era o objetivo da partida (mal sabia ele que, também, poderia ser seu maior desencontro). Torcia que fosse isso: que a lua o inspirasse e o absolvesse, e que sua ida repentina se justificasse pelo encontro que tiveram (e que queria levar vida afora!).
Será que ela ainda lia o livro que ganhara dele antes de dormir? Será que ainda falava sozinha durante a noite? Será que ainda usava seu pijama de estrelas? Será que ela ainda sonhava com ele?
Nesse mar adorável e revolto que estava submerso desde que partira, ele não sabia se era um mergulho ou um afogamento (na busca do nirvana). Era sempre noite agora e quase não tocava com seus pés o chão de areia… sentia medo! A sola dos pés dá a certeza do caminho. À noite, o fundo do mar sempre é assustador: nunca se sabe o que vai emergir das águas.
Será que ela ainda dançava pela cozinha no meio da noite? Será que ainda colecionava corais? Será que ainda comia medialunas? Será que ela ainda esperava por ele?
Estava num mar desconhecido, que jurava não existir… que não estava nos seus planos e nem no seu mapa. Que mar era aquele que fazia brotar as figuras que pintava, pensava e sentia? Que vazio no peito era esse por estar sem ela… que doía, mas ao mesmo tempo, justamente, lhe dava fôlego pra voltar à beira… Não dá pra respirar debaixo d’água.
Será que ela ainda era aquela menina com uma flor? Será que ela um dia teria filhos? Será que se encontrariam em algum momento? Será que ela ainda planejava algo com ele?
E ela tinha razão, lembrou… Bob Dylan que os perdoasse, mas a outra versão da música era demais. E em qualquer língua, a letra era válida e seguia dizendo ‘I Want You, I Want You’… como num disco de vinil riscado. Respirando, longe dela, sobrava ar pra cantar e querer novas coisas… Porque algumas paixões, de tão intensas e (re)significativas que são, não deixam outra alternativa além da partida.
Mas será que ela ainda pensava nele?
– Flávia Bernardi

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