QUANDO VOCÊ PARTIU

Era domingo de manhã e quando tocou o telefone lembro de ter olhado para o céu e entendido na hora: ele tinha morrido!
As pedras da calçada, que circulavam a casa, pareciam não acabar nunca… geralmente ia pulando amarelinha nelas, na minha infância espavitada, evitando o rejunte para não ‘morrer’ e conseguir chegar no Céu – escrito de giz em letra de forma… mas naquele dia, chegar lá era o que eu menos queria!
Apesar da pouca idade, peguei minha mãe no colo, quando entrei no quarto, após eu mesma adivinhar a notícia: sim, eu já sabia, ele tinha morrido! Acho que disse isso numa tentativa de poupá-la de precisar pronunciar a fatídica frase que confirmava a morte… (ela estava tão frágil naquele momento que até hoje, se fecho os olhos, ouço o som daquele seu sussurro sem fim!).
A viagem até à cidade vizinha pareceu durar horas… 42 quilômetros feitos a passos de formiga com uma grande folha nas costas!! Mesmo assim não deu tempo para adivinhar ao certo o que teria acontecido: de que forma ele decidira partir? Mas na minha cabeça o que martelava sem parar era um ‘por quê? por quê? por quê?’ sem fim… Difícil entender porque alguém escolhe morrer à garantia de um amor inocente, incondicional e necessitado da sua presença…
Será que ele tinha ideia do que representava na minha vida? Do que ficaria inscrito na minha alma por ele decidir antecipar sua partida?
Nariz colado ao vidro, ia desenhando todas as vezes que passamos por ali juntos, nas nossas aventuras silenciosas… éramos só nós dois pelas estradas da vida: de botas de borracha desbravando caminhos! Ver seu carro em frente de casa era o carimbo para abrir um sorriso: ele vinha me buscar para ganharmos o mundo! Mas naquela última sexta-feira, que antecedeu à fúnebre manhã dominical, foi diferente: ele veio e eu não fui… “Hoje tu não vai, Quinca!”, disse ele, com sua poesia disfarçada e endurecida pelo peso da vida. Ele tornara feminino o codinome que recebera de mim, anos antes, e sempre usava quando precisava explicar algo ou resistir a minha carinha pedinte: “Dessa vez tu não vai!”, disse ele. ‘Quinco’, era assim que eu o chamava: título que encontrei, uma espécie de rebatismo para definir esse lugar que era mais importante que um simples avô! Devo ter perguntado mil vezes o porquê que eu não iria naquele dia, mas ele não devia ter palavras pra explicar… afinal, a morte não tem mesmo explicação: nem pra quem vai, nem pra quem fica!
Acho que veio só se despedir… (e que bom que veio, hoje penso!)
O mundo infantil fica ainda mais frágil quando a cara da morte de fato se apresenta, porque ela ratifica que sim, um dia tudo finda mesmo. Não há criança que se imagina de pé sem a presença de alguém que cuide e ame… e a fantasia que surge, quando alguém morre, é que virá uma peste dizimando as casas e fazendo órfãos: a chuva-morte encharcando tudo e todos!
“Quem tem a chave do mistério, não teme tanto o medo de amar”, canta o Erasmo Carlos, na sua genial composição solo: ‘Sou mais um na multidão’… mas aos 8 anos, ninguém tem ainda chave de mistério algum, e eu também não a tinha… talvez por isso passei muitos anos com o chaveiro vazio! Argola sem chave, de quem foi menos atraente do que a sombra da morte: o bastão sombrio ceifando o narcisismo infantil, que é o sustento da segurança e confiança adultas!
Foi assim que partiu meu primeiro amor… e me deixou partida também.
Mais de três décadas depois, o filme: Viva: a vida é uma festa, visto sentada na ‘poltrona-de-mãe’, ajudou a olhar à morte de um outro jeito… Cultura mexicana aliada à mão dada: as mãos dos filhos nos conduzem por lindos e novos caminhos. Tive a sorte de ter duas mãos companheiras, para poder ter minhas mãos bem ocupadas e acompanhadas. Uma pena que ele não pode conhecer e se render aos encantos de Maria Clara e Beatriz… sorte minha que aprendi a não querer (e nem precisar!) soltar as mãos delas antes da hora: as perdas precoces registram também desejos de permanência!
No Dia dos Mortos, é possível reescrever histórias, rever culturas, sentir saudades e, principalmente, curtir os vivos… porque sim, apesar de tudo, a vida também pode ser uma grande festa!
– Flávia Bernardi

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