VEM COMIGO!!

Todo dia, no mesmo horário, ouvia o apito do trem… Não conseguia enxergá-lo, mas dava pra sentir o cheiro denso da fumaça cinza. Até que ela chegou…


Ela mexia comigo de um jeito perturbador. Falava dos meus modos como ninguém falara até então: “Por que guarda essa caneta aí? Por que está sempre com as mãos nos bolsos? Quem escolhe suas roupas? Quem cuida do seu cabelo? Pra que falar assim, tão formal, se estamos no meio da praça?”
Ela não entendia porque aquela postura tão rígida era minha vestimenta habitual. Desde cedo precisei proteger minhas fragilidades com essa espécie de armadura demodê que ostento agora. Não me orgulho, apenas visto. Fui pequeno com ansiedades grandes; fui jovem com desorganizações antigas. Busquei, no pátio do terreno circense que cresci, inspiração para me fantasiar quando fosse preciso. Minha casa tinha rodas, a cada hora estava num lugar, e assim precisei me despedir quando nem queria, acenar quando as mãos ainda estavam no bolso, sentir as chuvas invadirem as lonas e molharem meus pés enquanto dormia… Meu pai, mágico; minha mãe, malabarista. Ele sumia e aparecia; ela parecia não se confundir com seus malabares, que sempre estavam no ar. Comecei a sentir medo de me encantar com algo e, em seguida, isso já ficar pra trás. Passei a viver com as janelas semicerradas, como se enxergando o mundo com um olho só: através das graúdas flores das cortinas, imensas metonímias, onde todas as palavras condensavam todos os sentimentos. Entendia quase nada e achava que sabia tudo. Numa certa cidade, a mágica se tornou falível e meu pai sumiu pra sempre: e pela primeira vez vi os malabares dela se espalharem pelo chão… Eu também me esparramei ali e a alegria da tenda colorida trouxe um tom tão duro quanto as despedidas antes da hora: ir embora sem querer é quando a onda do mar desmancha o castelo e a gente ainda nem brincou… O tudo vira nada, vira água, vira só um rastro um pouco mais alto na areia: é a única marca de que existiu alguma coisa ali.
Passamos a conversar quase que diariamente e aquela menina me transportava à infância, que tinha gosto de saudade e também desejo de partida. Ela chegava pra mim, inocente e audaciosa, e me apresentava uma nova possibilidade: cutucava meu ombro, jogava pedrinhas na minha janela, trazia a cartola do meu pai numa das mãos e o malabar da minha mãe na outra. Mas não me fazia mal. Era prazeroso ouvir a voz dela… e eu sentava na calçada esperando que ela apontasse na esquina! Eu, adulto, olhava encantado para aquela menina que exigia de mim uma atitude subversiva e quase infiel: ela me convocava a pensar sobre o que eu fazia com meus dias, com meu tempo, com meus sentimentos… questionava com doçura sobre meu mundo tão sem cor, minha vida sem mágica, meu olhar sempre tão perdido. E aquele vagão pretérito trazia as longas viagens sem rumo, a plateia vazia, o medo de descobrir que o grande mágico era apenas outro garoto perdido… Meu peito se apertava nessa hora, mas o sorriso ensolarado dela parecia apaziguar a guerra entre aquelas narrativas todas, onde as dores se estranhavam: até então as palavras não tinham podido reproduzir tudo aquilo que acontecera. Entendi que não havia outro jeito de seguir senão escancarando as vidraças…
Fez um convite, que de pronto aceitei. A viagem seria longa, mas minha mão já estava estendida. Abri um botão da camisa e reparei nos seus pés descalços… os meus ainda estavam apertados.
Mas eu sabia que, como num passe de mágica, ela lançaria meus cadarços ao vento…
– Flávia Bernardi

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CINCO SÍLABAS

DÊ-ME SEMPRE A SUA MÃO!

EM TEMPOS DE PANDEMIA: A palavra como antídoto para as angústias