LEVE-ME PARA A LUA OU LEVE-ME DE VOLTA PRA CASA!

Tem horas que alguém acena na outra margem do rio e a travessia exige bem mais que uma mão para nos acompanhar… 


Estávamos nós duas sentadas debaixo de um pé de laranja-lima e ela confidenciou baixinho seus temores em apaixonar-se por outro. “A paixão sempre pode surgir, mansa ou arrebatadora, quando as trocas fluem fáceis”, balbuciou, virando-se de repente para mim. Até então falávamos futilidades, ríamos solto, sem nem ter ideia do tempo que já estávamos ali. Amigas desde sempre, sabíamos bem escutar os anseios uma da outra. Percebi nos olhos dela um misto de desejo e tensão, sem entender bem se era maior a dor ou o encanto. Há mais de duas décadas com aquela aliança, nunca passara pela sua cabeça retirá-la do dedo. Mesmo os amores maduros, frutos de relacionamentos sólidos, podem ficar afetados pela necessidade que o coração tem de bater um pouco mais forte às vezes, tamborilando num ritmo outro. A laranja também é meio lima e vice-versa… a natureza, sem maldade ou perversão, pode modificar seus frutos quando algumas sementes se encontram e se fundem nas profundezas da terra (por isso esses encontros só podem ser escondidos?). Quase num cochicho, disse que ele enxergava algo nela que nem ela mesma via, e seguiu: “-Tenho a sensação que ele lê minha alma. E a decifra”. Desde pequena eu soube que nem todo mundo pode compreender a alma do outro… Alma é coisa complicada, única, singular: camuflada de símbolos tantos que confundem quem simplesmente anda ao nosso lado. Lembrei do meu avô buscando minha mão antes mesmo de eu falar do medo que tinha de atravessar a ponte que levava ao outro lado do rio. Naquela hora, entrelaçando meus dedinhos aos seus, nascia a certeza de que ele ouvia e entendia meu coração, mesmo que aos pulos. Também ofereci minha mão ali pra ela, que respondeu com um aperto quase sôfrego… entendi: seu coração estava assim, apertado. E ela disse mais uma vez, numa convicção suave: “Sim, ele sabe me ler… ele sabe!”, olhando atenta pras nuvens que se misturavam às folhas e frutos da árvore, formando desenhos mais lindos ainda! Olhei também e, naquela mistura, vi um peixe no céu: peixe de nuvem ou nuvem de peixe… apontei e mostrei pra ela, que também conseguiu enxergar. Sabíamos bem do que a outra estava falando… e é muito mais fácil conversar assim! Talvez aí esteja o segredo do entendimento verdadeiro: os olhares precisam se encontrar nas mesmas imagens. E cada encontro é um mistério… é um enigma que escapa às palavras, e só revela sua beleza aos que ousam desvendá-lo, vivendo-o. 
Ela lembrou do mágico filme As Pontes de Madison, que vimos juntas; eu lembrei do livro Griffin & Sabine, de Nick Bantock, que tinha emprestado fazia anos a ela. Duas histórias extraordinárias de correspondências que relatam sentimentos intensos, dores, dúvidas, mistérios… e que acabam em distância. Apertou minha mão de novo: quando o fogo da paixão crepita, é quase impossível se imaginar partindo! Bem disse a escritora Livia Garcia-Roza: “Às vezes, o que mais dói é saber que vai passar“. E era justamente isso!
Com a mão livre tirou do bolso um papel bem dobrado. Copiara uma poesia do Ruy Barata, um poeta paraense, e que fizera sentido ao seu coração, parado bem no meio da encruzilhada. Leu, melodiosa: “Hoje sou. Ontem não era. Amanhã de quem serei? Um homem é sempre segredos“. O silêncio também nos deu a mão depois disso e assim ficamos por um tempo. Éramos três agora tentando entender o que fazer com os rios da vida. O tempo, moinho das águas, gira e faz com que as travessias não sejam mais assim tão descomplicadas, mesmo quando de mãos dadas com alguém. Certas decisões não permitem voltar para o outro lado do rio… e ela sabia bem disso! 
Já não tinha mais nuvens no céu e soprou uma brisa mansa… parecendo assoviar um Frank Sinatra, interpretando Fly me to the moon e nos dando o poder do Neil Armstrong para pisar onde quiséssemos: “Leve-me para a lua/deixe-me jogar entre as estrelas/ deixe-me ver como é a primavera/ em Júpiter e Marte/ em outras palavras, segure minha mão!“. Acompanhamos a melodia do vento, cantarolando também e possivelmente imaginando as travessias que poderiam acontecer, seja na realidade ou na fantasia (que é, possivelmente, seu melhor cenário!). Já quase dava pra ver a lua, que chegava minguando no céu, quando soltei a mão dela… mas ela não se mexeu dali. 
– Flávia Bernardi

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