A MENINA E O MAR
Se apenas carcaça ou um lindo peixe, se uma história de amor ou apenas linhas borradas… Cada um decide o destino final que será dado àquilo que viveu!
E ali, frente a frente com o mar, num tête-à-tête sincero, resolvera por um fim na situação que atulhava seus olhos de areia… e queria que as águas fossem o palco desse desfecho. Desde menina amava o cheiro de maresia, o frenesi quando a areia beija a sola do pé, a sensação de liberdade que se tem com o vai e vem das ondas. Dizia que o mar era dela e ela era do mar: “fomos feitos um pro outro!”, costumava repetir!!
Sabia que as cartas, única coisa que restara daquela história, precisavam ir pra fogueira, serem rasgadas ou jogadas ao mar. Eram apenas folhas de papel, mas pesavam como chumbo nos seus bolsos de seda durante esse tempo todo… e as linhas que arrematavam suas costuras eram frágeis, ela sempre soubera. Não dava pra viver a vida segurando o que pesa tanto, o que sinaliza que está prestes a romper. Cada linha escrita à mão, daquelas cartas de promessas não cumpridas, vinham, há anos, gerando dor e carga. Precisava se livrar daquilo!
Sentada na areia, espichou o ouvido em direção ao mar, que parecia querer segredar-lhe algo… cada onda parecia recitar uma página do livro que lera na adolescência e fizera cócegas nos seus ouvidos: ‘O VELHO E O MAR’, de Ernest Hemingway. O antigo livro com pedaço de cauda de peixe saindo capa afora, com ilustrações lindíssimas de C.F. Tunnicliffe, fora eleito por ela como a metáfora mais que perfeita de uma vida repleta de riscos e esforços que, no final, transformam-se apenas numa solidão absurda ao lado de uma carcaça que não vale nada. Aprendera que as coisas podem mesmo perder a importância com o passar do tempo, com o andar do barco… De que vale conseguir sacar das águas um Marlin de 700kg? De que vale sacar da vida um príncipe encantado? Se ambos, passado algum tempo, se deterioram e se desfiguram?
No livro, o velho personagem batalha com o peixe durante horas, arquitetando como faria para vencer, mas convicto de que não desistiria… Ela também não queria desistir: mas era impossível prender a pesca quando rompe a linha, quando a força das águas se faz superior (a natureza nunca deixa por menos e parece sempre ter uma lição na manga!)
O valor esteve apenas na retina de quem viu? O fato de tudo ter transformado-se em algo diferente é a comprovação que não tinha mesmo valor algum? Ou o valor é algo subjetivo que tem que ficar retido apenas na alma do pescador? Não sabia bem responder…
Releu uma das cartas. Quiçá tivera sorte, pois sempre ouvira que é sortudo quem encontra sua alma gêmea em meio ao aglomerado de pessoas que é o mundo… mas a sorte e o azar bebem da mesma fonte: suas metas dependem da circunstância em que chegam!
Uma onda estorou bem próxima a ela e, como num estalo, pode ouvir, de novo, a voz do autor: “É preferível ter sorte. Mas eu prefiro ser exacto. Assim, quando a sorte vem, está-se pronto para ela”. Talvez não estivessem prontos mesmos, pensou… A maturidade chega com a quantidade de banhos de mar que se toma: mergulhar, prender a respiração, emergir, vencer correntezas… clamar por boias quando for preciso. A sorte pode ter chegado na hora errada, então: eram meninos demais para tudo aquilo!
Releu uma das cartas. Quiçá tivera sorte, pois sempre ouvira que é sortudo quem encontra sua alma gêmea em meio ao aglomerado de pessoas que é o mundo… mas a sorte e o azar bebem da mesma fonte: suas metas dependem da circunstância em que chegam!
Uma onda estorou bem próxima a ela e, como num estalo, pode ouvir, de novo, a voz do autor: “É preferível ter sorte. Mas eu prefiro ser exacto. Assim, quando a sorte vem, está-se pronto para ela”. Talvez não estivessem prontos mesmos, pensou… A maturidade chega com a quantidade de banhos de mar que se toma: mergulhar, prender a respiração, emergir, vencer correntezas… clamar por boias quando for preciso. A sorte pode ter chegado na hora errada, então: eram meninos demais para tudo aquilo!
A derradeira onda lhe disse, ainda lendo as páginas de Hemingway: “Às vezes, a verdadeira vitória não se pode mostrar, nem a verdadeira coragem é tão visível ou evidente quanto se pensa”. Fora corajosa, tinha certeza disso; mas a vitória daquela vivência só a ela pertencia… seria pra sempre seu amor secreto, brilhante, intacto: guardaria a imagem do primeiro encontro e não da carcaça que tomou o lugar do grande peixe.
Cavou um buraco bem fundo, o mais fundo que pode… primeiro colocou os pés e deixou que se refestelassem na pouca água que tinha no âmago: movimentando os dedos, eles podiam se esconder na areia molhada e brincar com ela. Colocou as cartas ali dentro. O tanto de mar que brotara da areia nem lhe chegava às canelas, mas era suficiente para acolher, enxarcando cristalinamente, as páginas todas: ‘Fomos feitos um pro outro’, novamente pensou, e já não sabia bem se referia-se ao mar ou ao autor das epístolas… agora eram apenas uma coisa só, misturados naquele encontro de papel e água salgada, abraçados, ambos, pelas suas mãos!
Escreveu com o dedo no ar, depois rabiscou na areia a mesma frase do livro que até hoje sabia decor: “Quero tudo e nada quero. Posso? Permites-me tal ousadia? Subir a mais alta montanha, conhecer o algures e o nenhures; tocar o fundo de todos os mares e deitar-me com as estrelas e correr como o vento.” Fechou o buraco com a areia que restava ao redor. Apalpando os restos areentos, teve a nítida certeza de que tudo estava agora no lugar adequado.
Nesta noite, ela também sonharia com leões.
Nesta noite, ela também sonharia com leões.
– Flávia Bernardi
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