UM SAMBINHA ANTES DE VIRAR A ESQUINA

Esquinas são antecessoras do encontro, quase uma surpresa… a alguns passos antes da esquina fica justamente a possibilidade da imaginação seguir reinando: ‘O que vou encontrar ali?’. Depois a realidade irá se impor.


Aquele evento trouxe as chaves para pensamentos diversos. Enquanto falavam sobre encontros e desencontros, a plateia, atenta, certamente lembrava de capítulos vividos (afinal, difícil alguém não ter algo que venha à tona nessas horas!). As expressões faciais eram diversas, emanando segredos, planos, divagações… e quando Vinícius de Moraes ecoou na sala, com a arte do encontro musicada, deu impressão que os corações entraram no mesmo compasso: batendo afinados com o samba que benzia!
Ele passeava elegante pelos clássicos da literatura; ela, de alma leve, poetizava Sigmund Freud. Ele citava, orgulhoso, a irmã de sangue, também poeta, e tratava Fernando Pessoa como se fosse um parente, dada a familiaridade e o conhecimento; ela contava sobre seu reencontro com Manuel de Barros, como se tivesse acontecido numa mesa de bar, dada a doçura… e só por esse encontro o evento já teria valido a pena! Sem dúvidas havia uma áurea afetiva e bonita entre eles, que dividiam o microfone, talentos e vivências: era nítida a sintonia! Ouvir quem fala com propriedade é delicioso (principalmente para quem tem um obstáculo intransponível na garganta e um ventilador de ideias na cabeça: que atira uma pra cada lado na hora que a boca se abre!). Não é fácil refletir sobre as esquinas da vida, as quais dobramos e podemos, tanto nos surpreender com um encontro, quanto nos deparar com o cinza da calçada vazia: algo que (quase) ninguém quer. O vazio é mão gelada, que esfria o resto do corpo também… é canteiro esperando semente: porque jardim sempre rima com flor. E desde cedo esperamos o amor passar!
Outro dia, caminhando pelas nuvens, apareceu uma canção lá da infância: “Se essa rua fosse minha/ eu mandava ladrilhar/ com pedrinhas de brilhante/ Para o meu amor passar!”. Era isso, então: viemos guardando ladrilhos no bolso, para enfeitar a rua que o amor passará… torcendo para um encontro, arriscando desencontros (necessários) para poder encontrar algo ou alguém que mereça andar conosco sobre nossos ladrilhos, antes verdes, agora prateados!
Os comentaristas da noite, gentis por natureza, não abordaram as desilusões dos desencontros… esse tema que, de tão universal, pega todos pelo calcanhar (e congela as mãos!). Nascemos e já nos desencontramos do modo visceral que vivíamos no início: a mãe, nosso maior encontro, também é o maior dos desencontros! Eles não abordaram os juramentos não cumpridos ou a dor que dá quando um sonho, desfeito, deixa tanto caco pelo chão que, mesmo nos debruçando para recolhê-los, parecem nunca ter fim: vazios reeditados, eternos cacos de sonhos despedaçados, sempre voltam a se espalhar… doendo tudo de novo!
Paulinho da Viola, que tem música até no nome, compôs uma canção intitulada ‘Para ver as Meninas’, onde clama por uma “pausa de mil compassos” quando a falta aparece e abre um buraco no peito, quando os ‘cacos’ se multiplicam e se espalham pelo chão… Nos grandes desencontros – ou nos encontros complicados, onde a dissolução parece que não chega nunca – só se quer mesmo é pausar a dor (onde se encontra mesmo o botão de desliga, alguém sabe?).
Quem vive, quem se arrisca a viver, acaba andando por ruelas, dobrando esquinas e esquinas… brincando nesse eterno esconde-esconde que, também, é a vida.
O escritor Júlio Cortázar, numa entrevista ao jornalista Ernesto González Bermejo (que se transformou em livro: ‘Conversas com Cortázar’), fala da vez que tentou desviar de um encontro com uma mulher especial, e acabaram se encontrando mesmo assim, numa esquina improvável e de forma inusitada. Na antevéspera de partir para uma longa viagem, ele queria adiar seu encontro com ela, pois não desejava que este “fosse um tipo rendez vous”, que fosse breve, finito… Queria que fosse especial e duradouro, então, preferia adiá-lo a torná-lo banal. Porém apesar das suas manobras, o encontro acontece… quase que magicamente! A história é linda, e ele conta questionando o acaso, como se dissesse que de alguns encontros não se tem como fugir… (ok, caro Cortázar, quer dizer então que o universo conspira e não é possível evitar quando algo TEM que acontecer?). Não está escrito no livro – assim como não se fica sabendo o que acontece depois desse encontro numa das milhares esquinas de Paris – mas dá pra imaginar certinho ele dizendo: “Você me encanta. Parece alma gêmea. Não quero perder esse encontro, e o formato construido está tão pleno que o ideal é justamente cultivá-lo assim, creio”.
Prefiro pensar que certas distâncias são justamente a garantia do encontro. E que dentro de nós estão as chaves todas (assim mesmo, no plural!): porque não existe uma única chave, nem uma única esquina, nem só uma chance… Único mesmo, talvez, tenha que ser o desejo de poder ter encontros felizes!
(Parabéns, Denise Casara e Marcos Fernando Kirst… vocês foram ótimos!)
– Flávia Bernardi

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