NOS TRILHOS DA INCOMPLETUDE

Se não estiveres lá quando as portas se abrirem é porque estou no lugar errado. Falta ainda atravessar o rio.


Sobrava mais de hora antes da chegada do trem, naquela estação pitoresca que tinha as paredes cinza e um certo aroma de perder a hora. No bilhete esbranquiçado, o ’11h PM’, horário da partida, parecia brilhar em neon e a música começou a tocar sem parar na sua cabeça: “Se eu perder esse trem, que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã…”.
Mas de onde vinha aquela sensação de que alguma coisa daria errado? Ela imaginava que o trem passaria sem parar, ou que as portas não abririam à sua frente, ou ainda que o bilhete, seguro em suas mãos, seria carregado por uma rajada de vento – apesar da calmaria absoluta, que não mexia nem as folhas das árvores. O vento das incertezas singulares é implacável: não para nunca de soprar e assoviar desvarios. Colocou a passagem no bolso, para garantir.
Talvez nem fosse o receio de perder o trem, mas sim de sentir-se perdida (ou não encontrada!) quando chegasse ao seu destino: duvidava de que ele estaria lá lhe esperando… afinal, tantos encontros já cancelados, tantas desculpas ressaltando que, na subjetividade das prioridades, a matemática deles era muito diferente: ela sempre dava um jeito, somando; ele geralmente sumia, subtraindo sonhos, na impossibilidade de dividir atenções. ‘Encontros e desencontros são forjados por nós mesmos’, havia escrito ela, no guardanapo da mesa da cafeteria, na última vez que ele não apareceu. Lembrou que guardara-o no bolso, repetindo o gesto de instantes atrás (bolsos guardam mãos, segredos, receios… são também depósitos de sonhos e desejos).
O velho samba, que agora tocava na sua vitrola cerebral, era entoado todo domingo na varanda da casa do tio, em frente ao riacho, que deliciosamente fazia falsetes com o correr das suas águas… era ali que tudo se afinava, sem parar: a melodia de uma corredeira é contagiante. Engolia apressada a sobremesa, sabendo que depois disso o tio traria seu violão azulado e o sintonizaria com o córrego, iniciando a cantoria. Ela sempre pedia: ‘Toca o Trem das Onze!’ e o tio convocava a percussão, improvisada pelo amigo, para cantar, melodiosa e sussurradamente, os versos que iniciavam, na voz dele, num tom quase de lamento: “Não posso ficar nem mais um minuto com você, sinto muito amor mas não pode ser…”. Ela ainda não fazia nenhuma ideia do que seria perder a hora por amor. Lá, no doce som que embalava a infância, o relógio parecia não ter ponteiros: era apenas música soprando notas de inocentes desejos – geralmente concretizados. Não imaginava que pedras desviam e até represam as águas… ela tinha a licença poética infantil para crer que a incompletude existia apenas lá, bem longe, do outro lado do rio (ou em Jaçanã).
Sentada no banco da estação, naquela noite de dezembro, observou o relógio gigante que pendia do teto e escancarava a corredeira das horas: e sim, os ponteiros agora estavam ali. Crescera, afinal. Amadurecer é descobrir que o tempo passa. Recordou que o riacho cantante da infância trazia, na outra margem, alguns desejos enfarruscados e que hoje faziam mais sentido… se naquela época pudesse reconhecer-se incompleta, como se via agora, poderia ter tido a coragem (ou a necessidade) de cruzar a ponte que a conduziria até lá.
A psicanalista Sueli Santos escreveu: “O que nos torna humanos, o que nos marca como seres desejantes é, exatamente, a impossibilidade de completude.” Avistar (e reconhecer) a incompletude é o que possibilita cruzar o rio, entrar no trem, descer do trem, saber a hora certa de ficar ou de ir embora.
Era impossível ser completa… hoje, aos trinta e poucos, já sabia bem disso; mas sabia também que era perfeitamente possível sentir-se acompanhada: porque solidão não arranca pedaço, apenas denuncia que falta um abraço. Sentia-se inteira, apesar da incompletude; mas sabia que queria ter alguém ao seu lado… alguém de verdade, inteiro também, e que quisesse estar com ela. Solidão só é bom negócio quando é uma opção.
Algumas relações adornam, acrescentam; outras, apenas diminuem… colocam o sujeito num lugar de sobra, de resto. Entender essa matemática põe a vida no trilho certo. Tem pessoas que chegam e somem da vida da gente, levando consigo toda a inspiração colorida: daí vem o cinza dos dias (e das paredes).
O vagão chegou exatamente às onze… e ela pode pensar, sorrindo aliviada, que, caso perdesse esse, viriam outros.
O trem da vida é incansável e tem infinitos vagões. Insistir num único destino é investir no desejo de manter o desejo insatisfeito: porque tem horas em que a teimosia se fantasia de persistência para deixar o sujeito congelado e infeliz na mesma estação. Às vezes o apito soa anunciando a chegada, noutras para avisar que acabou.
Tirou o bilhete do bolso. Entrou no trem. “Quaiscalingudum, quaiscalingudum, quaiscalingudum…”, era só esse o som que escutava agora.
– Flávia Bernardi

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