SEM (mais) ANOS DE SOLIDÃO

“Para mim bastaria estar certo de que você e eu existimos neste momento.”
(Gabriel García Márquez)



Olhavam juntos para aquela foto batida no Observatório La Silla, no deserto do Atacama, no Chile, que mostrava um momento mágico: um pouco antes da Lua eclipsar totalmente o Sol, um ‘anel de diamante’ pode ser visto no céu… um céu que se dividiu em dia e noite: numa cena fantástica, dessas que distorce nossa percepção da realidade.
“A solidão em si mesma não deveria fazer sentido algum quando somos tantos neste calhau a contar do sol”, disse o estranho que estava ao seu lado, provocativo, talvez embriagado com aquela beleza toda… “Devia ser proibida!”, arrematou taxativo. De fato, como alguém podia sentir-se mal ou sozinho se estava vivo e em movimento debaixo daquele universo imenso? Se tinha alguém ao lado da cama, ao lado da mesa de trabalho, da poltrona do cinema? Mas não era simples assim, ela pensou… existe algo maior que chega, de repente, e denuncia vazios inexplicáveis dentro da gente, um rombo tão estranho quanto familiar; semelhante ao que escreveu, outro dia, Livia Garcia Roza: “Há uma solidão bem maior do que estar a sós”…
Independente dos astros ou preciosidades, não há solidão maior do que quando são dois com a pessoa errada, quando o desamparo nasce toda a manhã, quando sempre falta algo, quando o sonho se justifica, quando o sono não chega… E ela se sentia exatamente assim: leite na caneca sobre o fogão, derramando-se toda quando acendia o fogo ardente da solidão…
Aquela imagem mágica e paradoxal, o céu numa total ambivalência, trouxe a lembrança do universo enluarado que a mãe pintara no teto do seu quarto de infância… e ela lembrava bem de pendurarem juntas as estrelas, naquele firmamento amoroso feito a quatro mãos: “Se acordares no meio da noite, vai ver que tem um monte de estrelinhas aqui… e a lua também… elas vão te iluminar e acalmar teu coração!” . E era assim mesmo que acontecia: as luzes da certeza no tom da fala mansa dela afugentavam o medo da solidão! Mas as dúvidas agora não cessavam: “- Como posso me sentir assim tão só? Como às vezes fica tudo tão escuro, sendo ainda dia?”.
A solidão é bola de ferro, pesa o pé e dificulta a passada; leva a destinos incertos, ingratos; faz sofrer: porque a falta é tão intrínseca ao sujeito que talvez o próprio ato de senti-la seja a maneira de repetir a satisfação do encontro que aconteceu um dia… Enquanto se anda de braços dados com a solidão, dá-se o braço também àquela sensação de algum bem estar de outrora. E o fato dela ainda querer, naquele momento, estar com ele, podia ser a lembrança de um outro colo, que a fez ver o mundo mais iluminado, longe da solidão que apaga as luzes e nos faz tatear no escuro, quase cegos de paixão!
O livro do Gabriel Garcia Márquez, que trazia na bolsa, tinha lhe soprado no ouvido, momentos antes de entrar no Observatorio, uma explicação para agora: “Em todos os momentos de minha vida há uma mulher que me leva pela mão nas trevas de uma realidade que as mulheres conhecem melhor que os homens e nas quais se orientam melhor com menos luzes”. O feminino deve nascer mesmo com uma espécie de imã na ponta do dedo, magnetizado pelo instinto materno que sempre deseja tornar clara e mais fácil a vida pra sua cria. E ela sabia que tinha registro de uma intensa luz feminina, da mãe que gentilmente lhe oferecia estrelas… mas era tão mais descomplicado se acalmar no céu da sua infância, que brilhava seguro, do que naquele que nascia agora, cada vez que a lua ou o sol, eclipsados ou não, pairava sob sua cabeça…
A dependência tem fama de empacar a vida, impedindo que andemos soltos e livres por aí… mas também acaba servindo como elixir de segurança: saber que podemos depender de alguém, caso seja preciso, nos conduz à deliciosa certeza que teremos um colo garantido nos dias em que parece que não temos forças pra nada; colo que nos põe distantes do cianureto, naquelas horas de angústia: “Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados”, também escreve Garcia Márquez, na primeira frase da primeira página de ‘O Amor nos Tempos de Cólera’, onde narra a trajetória do homem que espera mais de meio século para amar por toda a vida.
(Se tivemos um bom colo, fica bem mais fácil esperar o amor).
Mas o que se faz com o tempo que antecede esse encontro? Como se vive com o coração esperando o tempo passar? Precisaria ela também esperar 50 anos para encontrar um amor possível de acontecer?
Os dias merecem serem vividos a cada passo, sem torcida para a pressa, ou para que o telefone toque, ou que o convite chegue, ou ainda para que aquele encontro novamente ocorra…
Saiu do Observatório ainda tonta, e nem viu mais aquele estranho sujeito que, lançando uma questão no ar, atiçara suas dúvidas… Aprendera, também com a mãe, que boas leituras promovem bons encontros, que elucidam dilemas e trazem alento para a alma… então abriu sua bolsa e trocou de livro, mas não de autor. O título era significativo para o momento: ‘Cem Anos de Solidão’ e, apesar de não querer viver nem mais cinco minutos se sentindo daquele jeito, pensou que talvez ali, naquelas páginas, estivesse mais um bocadinho do seu céu estrelado infantil… Escutou: “E sentindo que não conseguia mais aguentar o rumor glacial de seus rins e o ar de suas tripas, e o medo, e a ânsia atordoada de fugir dali e ao mesmo tempo ficar para sempre naquele silêncio exasperado e naquela solidão espantosa”. Numa espécie de eclipse dentro dela mesma nasceu a certeza que não queria ficar pra sempre assim.
E algumas certezas são estrelas. Já não estava mais sozinha debaixo daquele céu.
– Flávia Bernardi

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