A conta, por favor?!
BANCAR FINANCEIRAMENTE UMA RELAÇÃO É INDÍCIO DE ROMBO NO SALDO AFETIVO
Toda relação tem um caixa – e o papo aqui não é sobre golpe do baú… bem pelo contrário. Temos pensado no quanto algumas de nós fazem questão de oferecer crédito para o saldo devedor do seu amor. Sabe aqueles caixa-eletrônicos de banco que na primeira tela já oferecem, antes do extrato, a opção de empréstimo? A diferença é que os bancos cobram juros – altíssimos. Já nos relacionamentos, aparentemente, é crédito a fundo perdido.
Será? Antes de ser uma roubada para o devedor, esse padrão é encrenca certa para a credora. É que a garota do “deixa que eu pago” (o almoço, o fim de semana em Gramado, a gasolina toda vez que o casal para no posto, e mais adiante, talvez, a fralda e a escola dos filhos…) tá com uma séria dívida não só com o cheque especial, o que é muito provável, mas consigo mesma.
Existe esse tipo de gente?, você talvez se pergunte. Ô, se existe! Nas conversas entre amigas, e isso pode indicar um sintoma dos tempos de independência financeira, que quase todos desejam, não são poucas as que relatam situação assim. É possível até arriscar que a mitologia da pensão milionária ou da moça fútil que imagina que sua companhia tem de ser muito bem paga contribua para essa moeda reversa: a incapacidade de receber.
Equilíbrio continua em alta na bolsa de valores afetiva. Em muitos casos, significa saber aceitar as gentilezas do parceiro e dosar a própria generosidade. Avareza afetiva? Jamais. Mas assim como tem gente que esquece o aniversário de namoro ou desconhece o encanto de uma surpresa sem valor (uma florzinha arrancada do canteiro, um bilhete no para-brisa do carro…), há as que penduram todas as suas expectativas em um só pratinho da balança – o da oferta de agrados sem fim.
Essa generosa de plantão, na contrapartida, é capaz de dizer claramente que não precisa nada no seu aniversário. Um tempinho antes, comprou um cruzeiro para comemorar o primeiro Natal com o amado. No seu grande dia, sente um enjoo quando o café da manhã vem acompanhado de um acalorado parabéns a você com toda a família dele fazendo o backing vocal. Faltou algo? O lado supervalorizado da relação, provavelmente, desconhece o próprio saldo devedor: comete seus lapsos afetivos sem fazer a mínima ideia de que há, sim, expectativas – além de generosidade – da parte dela.
Em algum momento (talvez nesse em que não foi possível materializar afeto de volta nem num simples cartãozinho), a balança disfuncional vira! A conta escondida em algum lugar aparece. E essa conta vem de muito antes. É a dívida do indivíduo consigo mesmo. Um sentimento primordial de falta potencializado. Por medo da rejeição se promove a compra simbólica de um futuro ainda mais improvável, na conta dessa carência. Comportamento assim tende a ser um padrão, ou seja, não muda trocando de parceiro. Uma após a outra a relação chega ao fim por esgotamento desse caixa afetivo! Alguém já viu cobrador com cara boa? Crédito sem limites é bom apenas pra agiotas.
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