Águas femininas que me circundam
Texto publicado originalmente na revista Mundo Açoriano, Portugal, Janeiro de 2014.
Uma ilha só é ilha pela água que gira ao seu redor. Uma pessoa só se faz pessoa pelo amparo que recebe, pelos vínculos que lhe apresentam à vida. Escrever sobre a feminilidade é um pensar nos modelos identificatórios femininos que, tal qual água, circulam a minha volta: valseando lindos e vívidos! São jorros de vida feminina que acalentam a minha sede de amparo e que permitem que eu me derrame; que me fortalecem e sinalizam a estrada quando as luzes se apagam ou quando o caminho parece findar.
Algumas mulheres me rondam com seus jeitos peculiares, com seus olhares atentos e sedentos… Encostam-me manso com sua sensibilidade, me acolhem gostoso com suas almas repletas de espaço para a minha: convidam-me a ser mais eu neste encontro com elas!
Na ilha que sou, vejo o piscar feminino de versos e estilos diversos. São águas femininas que me circundam com suas composições e afetos, com seus modos únicos de reagir aos ventos, com seus sons mágicos. Águas que se agitam ao meu redor e trazem a merecida calmaria: como se o rumo da vida ficasse implícito nestes encontros inusitados e singulares.
Na ilha que sou, ouço Anas! O primeiro jorro que não poderia ser diferente: o jorro materno. A mãe que não pode faltar e que se quer por perto. Sua voz sempre me acalmou e o toque suave da sua mão curava até minha dor de barriga. Modelo feminino de amor e bondade, pingos doces de chuva no meu terreno tantas vezes árido. Soprou minha vida e até hoje nossas vozes se encontram para o dueto afinado que entoa a antiga música.
Na ilha que sou, preciso de Fernandas! Ainda pequena encontrei outra corrente para conter minhas terras… Onda-irmã: ela a crista, eu a espuma. Cresci enfeitiçada pela sua feminilidade cativante, admirando os destinos das suas águas. Destinou a mim um pedaço lindo e louro dos seus rios, que apadrinhei com todo amor. Mistura suas águas com minhas lágrimas e as seca, sem que eu sequer perceba. Apenas sinto o bem estar dos seus braços sensíveis e fortes, que dão conta daquilo que levo em meu subterrâneo.
Na ilha que sou, amo Marias! Das águas da vida também surgiu a fonte Clara para meus dias. Calma e intensa, doce e decidida… tal qual o movimento do mar – que sempre me hipnotizou! Fortaleceu meu lado mulher, inaugurando a maternidade. E quando meus cílios se desgrudam e descerra a cortina do dia é seu toque que arranca de mim o mais sublime sorriso. Minhas terras se alargaram quando ela chegou com suas malas e seu mundo encantado, com sua imaginação e seu hálito de esperança.
Na ilha que sou, procuro Tatianas! Das amigas que circundam com suas águas vitalizantes tem ela, com suas madeixas vermelhas e brilhantes, tão mágicas quanto sua presença. O fio telefônico faz as vezes de ponte, na maioria das vezes, para unir nossas ilhas-irmãs. E ela se faz concha para receber meus desabafos, devolvendo em eco suave respostas para meus questionamentos. Sua voz de sereia não me assusta nem censura e me derramo livre em suas águas…
Na ilha que sou, sorrio com Márcias! Ela que as correntes da vida sempre levam pra longe, mas que os magnetismos da amizade trazem de volta… Meu baú de memórias é composto por um mar de histórias nossas: e uma rodela de laranja se transforma em boia salva-vidas nas nossas conversas divertidas. As águas incolores ficam da cor suave do guaraná para darmos nossos passeios e a vida sempre corre solta nestes instantes!
Na ilha que sou, ouço Alessandras! Nas águas de Aquário ela sempre esteve… e por sorte nos topamos andando soltas nos mergulhos casuais da vida. Nossa sintonia aplaca a passagem do tempo que passamos nadando separadas. Sempre é dia claro dentro de mim quando a leio ou a encontro: sua luz invade minha casa e ilumina meus cômodos. Tal qual chafariz, refresca meus dias ensolarados!
Na ilha que sou, já sinto Beatriz! Ela que me arrebata com sua imagem ainda desconhecida, mas tão imaginada… no centro do meu corpo, boiando viva e pulsante na água que represo no ventre. Deságua no meu ser um desejo maior de viver a cada movimento seu. E me faz andar nas nuvens do tempo sentindo o gosto macio da responsabilidade de ser mãe pela segunda vez.
Na ilha que sou e habito, felizmente divago com Lilians e compartilho com Denises; encanto-me com Sabines, aprendo com Cíntias, flutuo com Taísas! Descubro cachoeiras com Andreas, Cátias e Letícias e, sorrindo, encontro ainda outras correntes que permitem minha dança aquática vital: Marinas, Paulas, Rosas, Roses e Clarices! Porque ao estender minha mão sei que alcançarei essas águas… e isso me permite respirar aliviada. Passos firmes necessitam de sustento, mesmo que se pretenda alçar voo.
Sou ilha…somos todas! Mas olho a minha volta e, cheia de contentamento, vejo e sinto essa torrente de água feminina por todos os lados. Que me banhem e acarinhem, que me lavem do perfume tantas vezes amargo da vida, que me acolham das desilusões, que se enalteçam comigo ao som de uma gargalhada, que me deem a mão para mergulharmos juntas quando as águas ficarem agitadas… Nada mais íntimo que um mergulho de mãos dadas!
E nada mais necessário que a intimidade para apresentarmos nossa ilha, para nos deixar cair, sem temor, na água… Na ilha que sou, submirjo nas águas da vida e, nesse mar de feminilidade, com elas, encontro a mim mesma!
- Flávia Bernardi é mãe de Maria Clara e de Beatriz. É também psicóloga e psicanalista. Mora em Caxias do Sul, cidade serrana do Brasil.
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