Conto de Natal

Arrumei minha franja volumosa me espelhando na bolinha prateada da árvore. Último ajuste para a chegada do bom velhinho. Disseram que ele chegaria dentro de alguns minutos e eu não queria perder tempo. Não é todo dia que o Papai Noel visita a casa da gente e ainda por cima traz presente! O cabelo precisava estar alinhado para combinar com minha roupa nova, afinal, estava achando tudo aquilo muito especial. Minha mãe havia dedicado horas à produção do peru: brincos de cereja, colares de ameixa preta, vestido de fios de ovos e muito abacaxi na bandeja que fazia as vezes de jardim. Todo cuidado foi pouco para transportarmos a “dona Perua” (batizamos assim o peru, naquela tarde enquanto a ave ainda tostava no forno escaldante!!) até o local da festa. Meu pai desviava os buracos da estrada e, a cada curva ou freada mais brusca, meu irmão conferia o estado da “dona” que estava acomodada zelosamente no colo da minha irmã e fazia, muito satisfeito e orgulhoso, um sinal de positivo. Lembrei do peru da música do Vinícius de Moraes, apresentada pela tia querida e com nome de flor, que pedia “abre alas” todo pomposo e não achei mais tão legal assim a nossa contribuição gastronômica à festa! Olhei para o peru paralisado e assado que agora descansava sobre a mesa enfeitada e senti uma pena danada… Chamei meu avô num canto e perguntei em tom choroso se a “dona Perua” era o mesmo peru da canção daquele disco que eu tanto gostava. Ele respondeu que não, amável e compreensivo como sempre. Respirei aliviada, livre de qualquer acusação assassina: “não matamos o peru, ufa!!”. Corri entre os parentes, virei estrelinha, plantei bananeira, contei histórias. A alegria da união familiar contagiava a todos. O ar tinha cheiro de harmonia, que era parecido com o cheiro delicioso de calda de chocolate debruçada sobre morangos frescos. Achei que era esse aroma que fazia com que todos sorrissem tanto! Até meu avô, que ultimamente andava tão quieto, se divertia com as cores e brilhos nos olhares. Do alto dos meus sete anos de idade, pude perceber que momentos como aqueles eram tão únicos como o dente molar que eu perdera dias antes. Sorri banguela, fazendo careta e arranquei uma gargalhada do meu avô que me puxou num abraço apertado, apertado… como se querendo perpetuar o momento. Ele também gostava de sentir o cheiro de calda de chocolate com moranguinho, pensei! E eu achei tão melhor se todos os dias fossem Natal… os parentes arrumados e felizes, de mãos dadas fazendo oração para saudar o nascimento do menino Jesus – espírito verdadeiro da festa, segundo minha mãe: ela dizia que isso era muito mais importante do que os presentes que ganharíamos. Não entendia muito bem o porquê que Ele nascia e nós é que ganhávamos presentes, mas deixei a dúvida pra lá. Logo logo Papai Noel chegaria abarrotado de pacotes coloridos e eu poderia segurar no colo a tão sonhada boneca-bebê, que tinha nome e tudo! E além do mais, certamente ele já teria entregue o presente de Jesus, na festa que imaginava ter no céu (sempre me disseram que Ele morava lá!), e então tudo estaria certo. Era tão simples realizar os sonhos que não parecia existir lugar para tristeza ou medos! Chegou, então, o Papai Noel, os presentes foram ansiosamente abertos, abraços e beijos trocados, palavras, promessas, discursos e novamente sorrisos. Descobri que também se chorava de felicidade – minha mãe justificou assim suas lágrimas: “é que eu estou tão feliz, filha!”. Lembro que achei tão engraçado o mundo dos adultos, afinal, eu tinha chorado apenas de dor ou de tristeza… e, na verdade, achei que assim fazia mais sentido! Corremos até o portão para nos despedir do Papai Noel que ia embora  – visivelmente cansado de tantos colos, beijos e perguntas – até o próximo Natal. Acenei com força, abraçada à boneca e atrelada às idéias mágicas que inundavam minha cabeça: tão altas e iluminadas quanto os fogos que clareavam o céu naquela noite. A “dona Perua” fez bonito na hora da ceia e a mesa ficou pequena para tanta comida e histórias. Eram histórias tão lindas que eu desejei também poder contá-las um dia. Minhas pupilas infantis, arregaladas e atentas, não perdiam uma cena sequer, enquanto o sorvete de abacaxi derretia-se sobre o panetone e ficou completamente esquecido quando meu tio entoou a primeira canção. Primeira de uma série, que reuniu a voz de todos os irmãos, dando notas musicais aos sentimentos. Ninguém perdia o compasso… ninguém queria ir embora! Meu avô ganhou um relógio bonito e eu quis acomodá-lo no seu pulso. Ficou olhando perdido para os ponteiros que se moviam lentos demais. Falou baixinho que cada minuto parecia durar horas e eu não entendi direito, pedi que repetisse. Fez um comentário sobre a pulseira do relógio, brincando com meus dedos, desconversando… Ele já devia saber que no próximo Natal não estaria mais acompanhando aflito o valsear demorado dos ponteiros. E, talvez, tenha imaginado como seria a próxima festa… sem ele.
            Nunca mais tive um Natal assim. O cheiro, dali por diante, era apenas de morango. Imaginava que o de calda de chocolate era sentido lá na festa do céu, onde meu avô passou a comemorar seus Natais a partir do ano seguinte!

São destes abraços da infância que nascem as inspirações, os talentos, as ideias… 35 anos de saudades. Feliz Natal, vovô!
(Feliz Natal, vovó, tio Nino e Vano!)

                                                          – Flávia Bernardi

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