Entre o amor líquido e a liquidação afetiva
A GENTE FICA SEM SABER O QUE FAZER QUANDO VÊ O MARIDO DA AMIGA NO TINDER
Ainda pequenos, ouvimos nossas mães cantarolando canções que davam ao amor romântico o poder de solucionar os nossos medos mais iniciais. Era como se fosse indispensável termos alguém. Aí vem o Zygmunt Bauman, com seu ‘Amor Líquido’, e nos diz que, no que se refere a relacionamentos, hoje em dia nada é feito para durar. Segundo ele: “a insegurança inspirada por essa condição estimula desejos tão conflitantes a ponto de estreitar esses laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos”. Respirando fundo, dá pra pensar mesmo que jamais os laços afetivos foram tão descartáveis… e que nunca as pessoas viveram tão inquietas e incessantemente decepcionadas com seus relacionamentos.A impressão é de que uma nova ética está surgindo. Serão novas formas que as pessoas estão encontrando para manter suas relações, ou apenas as velhas amarras que fazem com que o sujeito (mesmo vendo o amor e o desejo dobrar a esquina de casa e ir pra bem longe dali) siga querendo permanecer numa determinada história?Chama a atenção a forma como as pessoas estão se relacionando hoje em dia: com os outros e com elas mesmas. De como estão podendo cuidar daquilo que têm e daquilo que sentem. Por um lado, se aplaude certas liberdades; por outro, se lamenta a solidão… O mundo apresenta tal instantaneidade que parece tudo muito fácil: em dez vezes é possível parcelar uma passagem e, por que não?, estabelecer uma ponte-aérea Marcos-Francisco ou Rosana-Joana… Se vai tão longe e tão rápido que, muitas vezes, se desconsidera quem está bem ao lado.Queremos estar junto de quem gostamos, mas também tem uma liberdade sensacional que só a solidão permite. Torcemos o nariz quando o outro não sabe qual sabor de sorvete escolher quando chega ao balcão, quando lava a louça ao seu modo ou quando se entristece repentinamente no meio de um passeio… essas coisas que só a intimidade e o convívio produzem. Queremos mesmo ter alguém? Estamos dispostos a respeitar o jeito do outro, deixar que ele pique a cebola ao seu modo (e chore, se quiser!)? É tênue demais a linha entre um cuidado e uma intromissão desrespeitosa; um desejo verdadeiro de estar com alguém e um ideal que se precisa cumprir a qualquer preço.Não dá pra querer congelar uma situação por temor ou por vaidade. Daí a gente fica sem saber o que fazer quando vê o marido da amiga estampando sua foto e seus desejos num aplicativo de relacionamentos… “Como assim, você está procurando uma outra parceira? E sua companheira, que está sentada ao seu lado no cinema nesse momento?”. Parece ficção mesmo: a cara do bacana no celular da amiga ao lado e a mesma cara (só que de pau) dividindo uma caixa de pipocas com a mulher!).Há diversas situações onde acabamos, na verdade, traindo a nós mesmos. Quando desconhecemos os motivos que nos fazem permanecer num endereço enquanto nosso coração já está dentro de um trem em movimento… Talvez essa seja a maior traição: pior que estar na cama com outra pessoa, é estar deitado ao lado, dia após dia, de alguém por quem não se nutre mais afeto ou respeito.Qual é o pacto, afinal, já que bem sabemos a liquidez das relações atuais? Mesmo cientes que amores não são eternos, talvez possamos fazer um exercício de eternidade… Desejar, ao menos, que seja para sempre (combinar que não pegaremos um avião na primeira dificuldade). E, com isso, incluir mais respeito e lealdade nessa mistura tão delicada que se dá quando resolvemos entrelaçar nossos dedos aos de alguém (sim, porque isso nunca acontece à força… dar a mão é fácil, entrelaçar os dedos exige cumplicidade).A pessoa do aplicativo, ou aquela sempre impaciente, distante, irritada… todas sintetizam o compromisso descomprometido, que é como teclar o desfecho da própria história, mais dia, menos dia. Afinal, o mundo mudou, mas ainda somos carne e emoção! E isso vale para todos, homens e mulheres – lealdade não é questão de gênero! Mesmo que se concorde que nada dura para sempre, a entrega é o nosso infinito possível.
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