Eternamente

Enquanto a porta ia fechando ela tentava espiar pela fresta que ainda restava aberta. Aparecia apenas parte das pernas; que ela reconhecia completamente. Sempre. Para sempre reconheceria! As pernas, que antes se firmavam com força naquele louco amor, se moviam devagar em direção às escadas. Chegava ao fim aquela temporada de sorrisos e soluços. Tal como a porta, lenta e resistente, também ela se afastava daquele cenário que tantas vezes reconheceu como eterno…
O eterno pode durar um dia, alguns meses ou seis anos, tanto fazia agora. Pouco adiantava. A porta estava quase fechada e eles já tinham jurado nunca mais. Ele jurou pelo pai, ela jurou pedindo forças. Na tentativa vã de abraçar e beijar, ele se propunha a esquecer o juramento se ela desfizesse as malas. Desespero da dúvida que deixa vincos tão fundos que é capaz de caber uma mão. Desespero da dor de quem diz amar sem fim mas não agrega o peso dos fatos. Ela se esquivava, saía, desvencilhando-se daquele corpo aflito que jurava necessitar do seu. Cochichou um ´não posso, não quero, não sei viver assim`…
Ele gritou que podia pelos dois, queria mais que tudo, que lhe ensinaria a vida… Agora ela já tomara a decisão, ocupava o campo do sonho com um desejo novo. Mais forte do que pensara até então. Reuniu forças e rumou à saída. Pegou sua mão gelada, beijou, pediu que ficasse. Jurou ser a última vez: último pedido, última noite. Talvez o último adeus… “talvez”, para não deixar claro a promessa de nunca mais se verem.
O carro parecia andar devagar… na verdade, parecia nem se mexer do lugar. O pé que acelerava era o mesmo que insistia em voltar. Na memória, ainda figurava tão fresca aquela cena da porta: música como trilha triste de uma porta que se fecha e some com um corpo que quer permanecer.
“- E por que não pode? E por que não fica, então…”, dizia ele.
Restava a dúvida e a porta completamente cerrada. A fragilidade de ainda não saber investir em quem pode, às vezes, também fazer sofrer. Ideia tola de um amor sem percalços. De preferir um rio seco ao risco remoto de afogar-se nas águas refrescantes da fonte que jorra. Aos vinte e oito talvez não soubesse mesmo viver submersa. O peso da cruz que bradava o sofrimento, o pecado, o não-prazer ainda exercia forte domínio sobre ela. Não se livra assim tão facilmente do peso daquilo que é imposto como sagrado.
Sabia que voltaria um dia. Um encontro como o deles não acontece duas vezes na mesma vida. Era a alma dela que se interpunha à dele e vice-versa. Precisava acreditar nisso para poder ir e voltar.  Cruzou os dedos, piscou os olhos e torceu para que ele esperasse mais um pouco por ela.

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