Fotografia (Espelho, o dobro da dor)
Texto publicado no boletim do CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre), dezembro de 2014.
Ele não a reconhecia nas fotografias que via. Seu sorriso, seu olhar, seu cabelo revolto e sem brilho algum. Olhava e olhava e nada dela ali. Não sabia quem era aquela mulher que cozinhava sorrindo, que plantava com gratidão à terra, que acompanhava os filhos e o cachorro no parque com um sorriso terno, quase infantil. Pensou onde diabos estavam aquelas facetas nos anos todos em que estiveram juntos. Pensou onde poderia ter depositado seu olhar…
Porque ele sabia que o olhar também pode ser estrábico e eleger seu alvo, modificando-o. Sabia que costumava colorir suas lentes de azul para não precisar enxergar o que não lhe convinha. Como a lupa dos seus tempos de escoteiro, que transformava formigas em seres enormes que lhe faziam companhia nas noites intermináveis de acampamentos em campo aberto. Ousava abrir o zíper da barraca para espiar lá fora e a escuridão era tanta que lhe embrulhava o estômago. Buscava desesperado alguma estrela que pudesse iluminar seu pensamento, um bocadinho que fosse, quando voltasse a fechar os olhos e tentar mais uma vez adormecer. Era o brilho daquela estrela, presa dentro dele, que o acalmaria. E era o brilho daquela mulher, agora desconhecida, que lhe iluminara a vida por tanto tempo. Quem tinha apagado a luz agora? Não a enxergava mais. E a marca da pele tinha ganhado outras tintas e virado um grande borrão. Por que precisava morrer tantas vezes para poder renascer? Era pecado simplesmente viver, mesmo que voando baixo e constante? Lembrou-se disso quando seu ouvido ecoou a voz desafinada dela cantarolando a canção da fênix e mais uma vez pousou seus olhos nas fotografias que cintilavam miragens (como se imagens não coubessem nas molduras). Olhava para as unhas coloridas da dama da foto e a lembrança das mãos delicadas ficava ainda mais turva. Lembrava-se delas pousadas nas suas pernas, tão frágeis e acromáticas; e de quando ficavam entrelaçadas às suas para esperar assoviando o tempo passar. Agora sorria um riso nervoso, com dentes embaralhados ao pesar. Questionamentos soltos, numa busca acirrada para encontrá-la nalgum lugar. Desencontrá-la era uma forma de se perder também. Aquelas fotografias revelavam um passado inexistente, arrancavam páginas do seu livro e pedaços da sua própria carne. Poderia ele existir se constatasse que nada existiu? Às vezes as histórias inscritas tem a fragilidade da pérola, que só se mostra quando a ostra decide se abrir. E dizem os sábios dos reinos dos mares que até a mais linda pérola pode voltar a ser areia. Voltou o olhar a tempo de ver o último castelo tocar o chão. Rasgou o papel com as duas mãos agora, amassando-o com as mãos em forma de concha. E a onda levou sua última lembrança. A esperança de protagonizar aquele cenário virava espuma. Piscou os olhos duas vezes e mais uma, a derradeira. Tudo era areia agora.
…
Psicanalizar talvez seja um construir molduras para o sujeito poder revelar e expor suas fotografias. Imagens registradas durante a vida, material bruto que exige lapidação e tinta, ouvido, compreensão e uma boa dose de leveza para não precisar borrar nenhum detalhe (tudo pode ser visto, desde que sob as lentes da delicadeza). Inês Pedrosa, revelando-se, diz: “Assombram-me e tocam-me muitas palavras, ouvidas e escritas, diariamente. É duro ser-se tão sensível a uma palavra ou a ausência dela, mas também é isso que nos permite entrar dentro da alma dos outros”.
O analista bem pode ser comparado ao espelho que Peñuela Cãnizal lindamente descreve: “O valor que o espelho tem na antiga crença de que haveria uma correspondência mágica entre a coisa e a cópia que ele faz dela é, de repente, deslocado: o espelho não copia o rosto da mulher que está na sua frente, mas sim uma outra coisa pertencente a um mundo que não cabe no quarto em que a protagonista foi confinada.” . E o setting analítico comparado ao papel branco que o paciente encontra para poder revelar suas imagens. Ali, metaforizando e ressignificando, pode olhar e reinscrever suas borboletas soltas. Não para prendê-las, mas para poder admirá-las e entendê-las com proximidade. Não há como admirar a beleza das asas coloridas quando elas voam num céu distante. Como o universo, o psiquismo é vasto demais: e fica escuro quando não mapeado. Com as luzes apagadas todas as borboletas são bruxas.
O analista bem pode ser comparado ao espelho que Peñuela Cãnizal lindamente descreve: “O valor que o espelho tem na antiga crença de que haveria uma correspondência mágica entre a coisa e a cópia que ele faz dela é, de repente, deslocado: o espelho não copia o rosto da mulher que está na sua frente, mas sim uma outra coisa pertencente a um mundo que não cabe no quarto em que a protagonista foi confinada.” . E o setting analítico comparado ao papel branco que o paciente encontra para poder revelar suas imagens. Ali, metaforizando e ressignificando, pode olhar e reinscrever suas borboletas soltas. Não para prendê-las, mas para poder admirá-las e entendê-las com proximidade. Não há como admirar a beleza das asas coloridas quando elas voam num céu distante. Como o universo, o psiquismo é vasto demais: e fica escuro quando não mapeado. Com as luzes apagadas todas as borboletas são bruxas.
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