Ilhas

Texto publicado originalmente na revista Mundo Açoriano, Portugal, Agosto de 2012.
Escrever sobre ilhas é escrever sobre o ser humano. Pedaço de terra, pedaço de carne, rodeado de água, amores e caminhos por todos os lados… escolhas infinitas que estremecem o solo, perdas que marcam a carne. Vejo as pessoas assim: aos pedaços e tantas vezes boiando solas num oceano sem fim.

À primeira vista pode parecer meio trágico pensar nesses seres flutuantes e solitários. Mas quando, como eu, se pensa a solidão como algo edificante e estruturante, quando se vê necessidade em estar, hora ou outra, apenas consigo mesmo, tal aventura aquática ganha uma série infinita de cores…
Ganha a cor dourada do ouro e a possibilidade de metaforizar o passado. Tempo pretérito que não pode ser modificado na sua essência de metal-marca, mas pode ser derretido e transformado naquilo que nossa criatividade quiser. E aí o dedo ostenta a jóia, modificando o lixo do que passou.
O cheiro verde da liberdade quando sentamos na grama ou quando deitamos as folhas de manjericão na panela fervilhando… Transporta-nos para lugares longínquos e insólitos sem tirar os pés do chão. É bom transpor distâncias com o poder da fantasia: sem sair do lugar.
Marrom-chocolate, na companhia do sofá. Ilha afastada de qualquer continente. Não se cogita, nessas horas, qualquer ponte que aproxime nossa ilha de lugar algum. Uma xícara de chá, apenas. Para aquecer a alma e as mãos. A música do mais egoísta agrado: navegar nas ondas do que faz o coração dançar. Sem precisar mudar para alcançar o passo do outro.
A cor da morte, que deve ser cinza ou roxo. A morte do ser sozinho, a morte do ser com outro – o tudo que morre nas concessões necessárias para compartilhar a vida com alguém. O morrer quando um amor parte: se morre vivo!
Gosto de olhar o azul-lilás do céu num final de tarde feliz. As cores mudam de acordo com nosso interior. É incrível! Olhar o mundo cor-de-rosa depende muito mais de nosso bem estar do que da cor que o céu se pinta. Já teve dia que enxerguei nuvens pretas em pleno dia ensolarado de verão. Noutro dia, via sol e estrelas em plena chuvarada lá fora.
E nenhum pingo me alcançou.
Tem horas que o ser ilha me encanta bem mais que ser cidade.  O mar faz com que, obrigatoriamente, se fique consigo mesmo. O nado cansa mil vezes mais que os pés tocando o chão. Olhar a distância que será percorrida a braçadas faz o sujeito apreciar o chão firme. Asas são coloridas como arco-íris, mas nos faltam na maioria das vezes.
Somos ilhas. Com o tilintar animado dos martelos criando pontes para um continente, contrapondo-se com a vontade de ficarmos encarcerados ali. Perdidos e encontrados.  Contrapondo-se, até, com a própria felicidade. Inês Pedrosa (ilha portuguesa que não canso de ancorar sorrindo) diz, nas linhas de uma de suas lindas obras, que as pessoas nunca regressam para o lugar que foram felizes. Sigmund Freud (ponte que me leva ao encontro de outras almas) diria que nunca mais se alcançará a felicidade do momento perfeito vivido um dia, lá bem no início.
Além de ilha, então, somos mar também: indo e vindo, inquietos. Buscando cores que restaurem as telas vividas, catando lembranças para povoar paredes.  Espécie de alteridade que só pode existir na integração da ilha e do continente: cores primárias que necessitam tanto da mistura para criar o novo, quanto de manterem-se intactas para preservar sua verdadeira natureza.
Minha ilha tem as cores da bandeira do brasão de que descendo ou a cor límpida do nome que recebi? Ambos, talvez. E essa é a cor da dúvida. Uma cor que não tem nome e que torna o mar, tantas vezes, desconhecido e assustador. Onde boiamos sozinhos num mar que é de todos. Um olho na ilha, outro na terra firme.
E haja coragem para ir. E haja coragem para ficar. Nessa cartela de cores infinitas que é a vida de cada um.

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