Na TPM Eu Deixo de Amar

Parte do texto publicado na Revista Noivas, encarte do jornal Pioneiro de Caxias do Sul, em Setembro de 2017.

Ela secava a fronte e apertava as mãos. Chacoalhava os dedos numa velocidade frenética: tamborilavam no samba ardente dos hormônios que regiam seus nervos desde que raiara o dia. Seu olhar injuriado e angustiado se perdia pelas gotas secas da vidraça da sala. Como nunca havia pensado nisso nem se dado conta até aqui? Como nunca percebera que aquela gentileza toda era pura artimanha para lhe enredar num plano sórdido de prisão domiciliar? Devia ter estranhado, percebido logo de início que lhe mimar com sushis numa simples quinta-feira à noite, ajudar com os animais da casa, ser carinhoso, disposto e disponível rimava com falsidade de um, até, quem sabe, sociopata à paisana… Logo ela, que não nascera ontem e primava tanto pela sinceridade, se viu iludida pelo modo fácil que ele largou os compromissos de solteiro, que quis andar de mãos dadas no mercado, que topou filmes com papos e pipocas. Ingenuidade sua… mas a arte do safado era tanta que nem sua amiga-prudência-em pessoa estava acreditando e seguia apostando no cara: “Será que é pra tanto?! Acho ele tão legal contigo…e tu fica tão melhor com ele!!”, respondeu a tal amiga após ouvir seus relatos. Engraçado mesmo é que até ontem tudo estava bem. E agora tudo ruía tal pinheiro que tem sua base cortada às pressas: sempre cai fazendo estragos! Resolveu antecipar a conversa, afinal ela não tinha mais tempo a perder com bobagens e homem algum viria com presentinhos e cuidados, com chás e ervas e beijinhos fáceis para extorquir sua liberdade… Ele sentou à sua frente. Estranhou o seu olhar distante, quase raivoso, estranhou o abraço gelado. Cada palavra dela lhe soava estranha e absurda. Aquelas acusações e dúvidas todas sobre os seus sentimentos tão genuínos… logo ele que por tanto tempo se protegeu do amor e, ultimamente, tinha se encorajado a deixar fluir. Cadê aquela que lhe conquistara para o amor? Sua amiga e companheira, aquela mulher que lhe fez ver que andar a dois pela vida valia a pena? Tentava encontrar nela algum resquício do sorriso doce e a mão parceira. À sua frente uma mulher encarcerada à ideia fixa de um desejo de solidão: via o sofrimento dela, mas via também que algo, alguma coisa a deixava tão suscetível a ponto de duvidar de tudo. Torceu que chegasse um novo dia para lhe dissuadir dessa ideia de romper e partir. Torceu que ela decidisse ficar.
Duas luas passaram e o sangue que escorre parece drenar o medo de entrega. As gotas liberam os passos da mulher que, a cada tensão, reencontra a menina de outrora, que só pertence à sua velha e conhecida casa: o colo do pai é o maior e único aconchego seguro. Nessa preparação do corpo para anunciar o maior símbolo de feminilidade e fertilidade, de possibilidade de autonomia e de geração de vidas, o psiquismo da mulher se vê revisitado por fantasmas esquecidos. Cada mês reedita a dificuldade que é ser mulher de verdade!
– Flávia Bernardi

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