O Amor Não Pode Viver na Penumbra

É a tal solidão a dois… aí a gente fica tipo cabra-cega procurando o outro no vazio do quarto e não encontra ninguém.

Se enroscar nas próprias fantasias era quase uma constante. Bastava um olhar cerrado, atravessado ou gélido para que os caracóis dos cabelos adentrassem e embaralhassem seus pensamentos. A maturidade havia se tornado um pente eficaz para desembaraçar fios e medos… inseguranças e falsas percepções se desfaziam fáceis quando as cerdas da serenidade lhe passavam à cabeça. Mas em alguns momentos nada dissolve os nós: as convicções são infalíveis quando se entrelaçam com as inseguranças ou ativam capítulos dolorosos anteriormente vividos.
Naquela noite, olhos fixos mais uma vez no lustre pendente do teto. Um único clarão entrava furtivo pela fresta da cortina mal fechada e iluminava o quarto. Cama cheia, corpo vazio. O líquido que seria seu ainda armazenado no corpo dele. Cenário perfeito para os fantasmas saracotearem atrevidos e perversos, caindo sobre ela como pétalas murchas de um eterno malmequer. Devia ser o poste da rua que iluminava o quarto, com aquela cintilação lânguida que ora acendia ora apagava. A chegada da noite nunca trazia a certeza que a luz brotaria de lá. Naquela noite, o feixe tímido lhe fazia companhia no exílio do quarto: “- Era isso que cantava Cazuza na sua solidão a dois?”, falou baixinho para si mesma.
Olhava para o lado e, na penumbra, procurava o passado – apesar de tanto sorrir com o presente. Mas agora, era a boca dele que queria na sua; e era a boca dela que ansiava que ele desejasse também: não qualquer boca, mas a dela, apenas a dela. Torcia que ele desejasse seu corpo com a mesma voracidade de sempre: quase uma urgência. Pode ser do feminino mesmo essa ânsia de somar com a passagem do tempo sem precisar subtrair ou diminuir a marcha. Aos 20, 40 ou 60, o amor pode existir livre. E a liberdade das fases avançadas da vida podem sim fazer crescer o desejo: a pele mais afinada intensifica as sensações. Buscou a mão dele, adormecida, e repousou sobre suas pernas. A luz da rua apagou.
Voluntariamente aprisionada no desejo de manter-se fiel e seduzida pela oportunidade de sentir-se viva, também, no corpo dele, aproximou-se com delicadeza e determinação. Ultimamente, em várias noites sentia-se morta. Lembrava da frase que tanto marcara sua infância, dita pelo personagem Zezinho, do Meu Pé de Laranja Lima: “Matar não quer dizer a gente pegar o revólver de Buck Jones e fazer bum! Não é isso. A gente mata no coração. Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu.” Ela não queria matar e nem morrer. Não queria que todo aquele amor se transformasse em morte alguma.
Deu-se conta que o amor pode assumir muitas facetas e se tornar irreconhecível: e ela não conseguia reconhecê-lo ali. Os corpos, estáticos, pareciam esquecidos do movimento erótico de quem necessita do corpo do outro. Passaram-se décadas sim, e daí? Desde quando o amor sucumbe ao folhear do calendário? Abduzidos pelo prazer, antigamente, passavam horas numa dança mágica, onde a mistura de ambos não obedecia nenhuma lei. Queria aquilo novamente.
Chamou seu nome, de um jeito tão vagaroso e sussurrado que sentiu cócegas na língua… Repetiu só pra sentir mais uma vez aquela sensação gostosa. O nome de quem se ama, pronunciado com a força do desejo, é erótico por si só. Ousam dizer que a palavra acende a luz, que o verbo nos liberta de ficarmos escravos do acendimento automático. É a língua e seus dizeres que iluminam e não o poste lá fora do quarto. Eram eles que precisavam se redescobrir e reencontrar a paixão que ficara trancafiada em alguma curva da estrada, que havia sido apagada pelo peso da história. “Vim porque a luz que você acende à noite não me deixa dormir”, diz o marido que, em meio à batalha, volta para casa para reencontrar a esposa, no conto de Marina Colasanti.
Quando ele acordou, ela acendeu a luminária para enxergar seu rosto: a escuridão nunca revela o brilho do olhar. E é preciso clareza para saborear o amor.
– Flávia Bernardi

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