O que que há com os nossos olhos?
NÃO RARO TROCAMOS O FOCO NO MUNDO PELA DIREÇÃO EM QUE OLHA O NOSSO AMADO
A vida é uma grande viagem, isso é fato! Nascemos e já embarcamos no olhar da mãe que vai nos apresentando o mundo… e é bem assim: olhando para onde olha o olhar dela, descobrimos pessoas e lugares. Enrolados em panos, ainda, nos cabe apenas torcer para que nossas mães olhem desejosas e esperançosas para os lados (bem como, para que se olhem em seus próprios espelhos e se enxerguem válidas!). E vamos crescendo; espera-se que curiosos e seguros o suficiente para desejar que novos elementos surjam no nosso enredo, que a visão se amplie e, tomara, se refine!
Noutro dia, uma amiga entusiasta falava que o feminino nos reserva um olhar apurado (quase intuitivo, um feeling nato ou algo assim!). Dizia ela que a alma feminina tem um certo dom de captar situações através olhar. Por insegurança ou perspicácia, talento ou defesa, a ideia é que as mulheres teriam uma capacidade ímpar para tanto. Se seguíssemos nossa intuição, então, daríamos inveja aos linces! ‘Uma pena que não confiamos nesse olhar, que vira e mexe duvidamos de nós mesmas com tanta facilidade…’, lamentava ela, já perdendo um pouco os tons vibrantes daquele entusiasmo costumeiro.O texto da Inês Pedrosa foi lembrado e entrou na roda da conversa, com seu maravilhoso conto “Só Sexo”, de 2003, onde narra uma mulher denunciando o amor do marido para a outra mulher, percebido apenas pela forma como ele olha para ela: “Os olhos da mulher de um homem que nos ama são indiscretos. Também nos olhos dela encontrei o teu amor por mim”, diz a personagem apaixonada, recordando-se de um encontro casual que tiveram entre tantos desencontros que a vida lhes reservou. Não é difícil imaginar a cena do conto (e nem se pôr no lugar de uma ou da outra…). A passagem do tempo e a vivência de paixões e amores já fez a maioria de nós sentir o peso de olhares ressentidos, saudosos, surpresos… olhares que buscam ou desviam, que se entregam ou que, estrábicos, buscam desesperados por direções opostas.Será que nós, mulheres, realmente nos habituamos a seguir olhos alheios para entender o mundo? Será que catamos olhares para poder transver (como na poesia de Manoel de Barros) tudo aquilo que justamente se perde em nós? Parece que se inaugura aí algo de um olhar vazio, que só fica preenchido se acompanhado e confirmado pelo exterrno: nossa percepção não deveria precisar de carimbo de cartório reconhecendo firma de autenticidade! Deveria, se sensata, valer e só. Simples assim! Carimbada pela nossa confiança… Triste quando não podemos confiar naquilo que vemos… seja para partir chorando, seja para permanecer serenas.
E então nos pegamos, não raro, acompanhando o olhar do amado, sentado ao nosso lado, para um vestido que passa à frente (e, menos raro ainda, voltamos o olhar pra ele, aguardando uma resposta… só pra escutá-lo embaraçar o óbvio e nos dar uma desculpa qualquer!). Engraçado porque, dificilmente, nos pegamos olhando assim: ‘comendo com os olhos’, o que é tão comum no universo masculino (lógico que pode ser mais costume e pressão do que desejo deles de fato!). E aí vem a grande pergunta: por que o nosso foco, já adultas, tantas vezes é o olhar do nosso par ao invés dos olhares próprios e/ou do mundo que podem estar voltados para nós?Se o amado pode desviar o olhar do semáforo para reconhecer sua gerente de banco (que está de costas, saindo de um carro estacionado… logo ele que não reconhece nem, de frente, sua tia-avó!), você também poderia vislumbrar o céu azul lá fora, reparar no bonitão com um livro do Rilke na mão atravessando a rua sorrindo ou, apenas, olhar no espelho e perceber como o tempo vem sendo generoso com você!Fixado no poste na rua pode estar colado um desses cartazes-gentileza lembrando: ‘Hei, nunca se perca de vista!’… mas para enxergá-lo, você tem que estar com a posse do seu olhar. Se perdido no olhar do outro, passará batido, justificando as faltas tão presentes nos nossos olhares e atitudes. Gostando nós ou não, de fato existem visões meio extraviadas dentro do universo feminino: que é o que gera tanta dificuldade de focarmos em nós!O tema do olhar sempre acaba suscitando várias especulações… tipo as lentes do arquétipo feminino selvagem que a Clarissa Pinkola Estés, em seu ‘Mulheres que correm com os lobos’ expõe. Esse livro, de 1994, que é baseado na tese de doutorado dela, fala, entre outros temas, sobre um olhar intuitivo feminino, perdido em meio à ‘pseudo evolução’ da mulher. Diz ela que, à medida que fomos nos civilizando, fomos também nos afastando da nossa essência e nos aprisionando em regras sociais e receios diversos. Tal livro parece jogar pedrinhas em nossas janelas e chamar atenção às possibilidades de sermos livres, ou seja: de que nosso olhar possa (e deva!) mirar o que bem quisermos; que ele nos revele honestamente as percepções e imagens que caem bem à nossa frente… e que possamos, de fato, enxergar todas elas! Sem as lentes de um perfeccionismo que tantas vezes nos cega… com um olhar pertinente, divertido e perspicaz: na medida! Porque os desejos (mais infantis) e os ideais que criamos (ou cegamente obedecemos) também acabam sendo peritos em transviar a realidade: daí o olhar do outro mira apenas uma quitinete e a gente já está quase alugando um castelo!Talvez se nosso foco se voltar mais para nós mesmas, nosso olhar poderá ser, ao mesmo tempo, adequado e realista. Não precisa ser só um olhar que choraminga ou esmola, que ainda acha precisar de autorizações para eleger a cor das lentes e vislumbrar novas paisagens… que elas até sejam cor-de-rosa, mas mesmo assim fortes! Sem os mimimis que homens e mulheres tantas vezes imaginam, por engano, que devem ser a condição da feminilidade.
Flávia Bernardi
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