O tal dedinho podre
OLHAR PARA AS IDENTIFICAÇÕES QUE NOS CONSTITUEM AJUDA A FAZER ESCOLHAS MAIS ACERTADAS
O que nos faz olhar para uma pessoa e não para as inúmeras que estão ao redor dela? Ou direciona nossa mira exatamente para aquele cara de camisa xadrez no balcão do bar? Nossas escolhas afetivas partem de um elo central… e arriscamos dizer que este elo seja o Complexo de Édipo.
Não, o intuito não é transformar esse texto num tratado de Psicanálise… apenas pensar nas formas como fazemos (ou não conseguimos fazer!) nossas escolhas amorosas.
Freud dizia que os encontros amorosos seriam, na verdade, reencontros… quer dizer, cenas reeditadas da nossa infância, com aroma agridoce de dèja vu: “Êpa, já vi esse filme antes!” E como numa troca de ato, nos vemos desejando alguém como um dia desejamos nossos primeiros objetos amorosos. O amor é universal, particular é o ato da escolha… e é aí que queremos chegar!
Cada um de nós organizou ao seu modo os desejos amorosos e hostis em relação aos pais. O fato é que o homem ideal de todas as meninas um dia já foi o papai (sim, você já teve quatro anos, seu pai já foi o maior gatão aos seus olhos e você desejou que sua mãe não existisse para vocês dois viverem em paz e felizes para sempre! E o mesmo aconteceu para os meninos, tendo a mãe como protagonista.). Essa organização pretérita e adequada é que nos libera para voar nas asas do amor, livres… Pessoa alguma terá chance conosco se vivermos a vida rodopiando no salão, sob a batuta da marchinha famosa de Carnaval: “Papai é o maior, papai é que é o tal!!”
A escritora e cartunista argentina Maitena, em seus quadrinhos hilários, nos brinda com várias situações da mulher (menina) procurando o pai nas suas relações amorosas, tentando transformar o atual parceiro no seu sucessor. Fácil colocar o amado nesse lugar: de ser a perfeita cópia ou o completo oposto do patriarca. Sim, porque o desespero por fazer diferente também autentica a existência de uma igualdade. Quanto mais próximo do perigo, mais intenso tem que ser o movimento para nos afastar dele, não?!
Não há como impedir de todo que isso ocorra – e nem haveria o porquê! Necessitamos de identificações para nos constituir. O Édipo funciona como uma mola propulsora, que permite ampliarmos nossa rede de desejos e passar a nos relacionar com outros grupos também. Um impulso para chegar perto do bonitão do bar (no colo do namorado, na vida do marido, enfim, para se aproximar e se envolver com uma nova pessoa). Mas talvez precisemos considerar a passagem do tempo e admitir que “papai”, de fato, não nos escolheu (graças a Deus, senão seria incesto!) para bem direcionar a mola e não ser arremessada, sozinha, ao precipício; pensar na dialética do amor, nesse farfalhar de borboletas no estômago que faz coro para Vinicius de Moraes, que diz, no seu Samba da Bênção, que a vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro por aí… E se o dedo que elege o parceiro tem ainda a unha pintada com esmalte rosa-chiclete da Barbie, a chance de haver um desencontro é gigante! Tem muita gente que ainda sofre sozinha por se negar a admitir não ter sido a eleita lá na tenra infância, e segue sem entender que na vida adulta não precisa, necessariamente, haver disputas ou prejudicados numa relação amorosa (ok, ok, você perdeu pra sua mãe, mas isso não faz de você uma perdedora… pelo contrário, é justamente isso que propiciará que você eleja um outro alguém possível: vitória do amor!). E daí passa a enxergar todas as outras mulheres como adversárias – e quer sair disputando com elas (ok, ok, se você não exatamente perdeu pra sua mãe, não precisa agora conquistar um “outro pai” apenas por vingança!).Esse é o grande desafio: conviver com as transformações que vão ocorrendo na vida da gente, sem ficar amarradas ao passado; tomar elas como base e não como âncora que nos aprisiona. Ficar congelada numa época remota da vida é desconsiderar as inúmeras possibilidades que se tem. E aí, ao invés de um encontro bacana, a gente já vai na contramão, que é pra se desencontrar mesmo!
Tudo bem se seu pai também usava camisa xadrez… a grande sacada da maturidade é poder entender (e desejar) que outro homem possa caber na peça. Daí fica mais fácil encontrar alguém disponível para cruzar a ponte com a gente!
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