Solidão a dois: quem nunca?
QUANDO O MONSTRO DA FALTA BATE À PORTA
Difícil achar a medida certa para arejar a relação sem deixar que esfrie. Abrir espaço para cada um ter sua vida sem que o próximo encontro precise ser agendado como se fosse qualquer das obrigações cotidianas. Depois de descobrirem tantas afinidades, armarem encontros, confessarem receios, assumirem saudades, vocês finalmente se deram as mãos. E não foi só lá no alto da roda-gigante. Saíram por aí, orgulhosos (você fazendo malabarismos para tomar um sorvete com a mão esquerda e ainda equilibrar a alça da bolsa, já que não soltaria a mão dele por proposta nenhuma!). Uns meses depois (para os sortudos, talvez anos; para os instáveis, dias…) ambos concordam que não precisam viver grudados… mas a ausência é quase insuportável.Onde está o seu amor nas noites em que os pés congelam? Como no meio de tanta intimidade (suor e saliva, memórias de infância e planos para o futuro compartilhados) é possível faltar coragem de mandar um whats para que ele venha logo quebrar o gelo? Há uma resistência em simplesmente comunicar o desejo de proximidade, talvez porque a gente esteja cansada de saber que uma relação precisa de uma brisa. Mas qual a medida certa para não provocar um vendaval que derrube os frutos ainda verdes?Na fábula dos Três Porquinhos, uma assoprada do Lobo Mau coloca as casas no chão. Viver em casas separadas é correr risco permanente de desabamento? Em algum momento a gente assume o papel do vilão, colocando tudo abaixo quando o desejo é convidar para estender a noite até o meio-dia.Na adolescência, a gente ouvia Kid Abelha sem saber o quanto era séria a necessidade de encontrar a tal fórmula do amor… Agora parece que até uma relação com toda a pinta de “escrita nas estrelas” carece de alquimia. Xiiii, nessas horas dá um medinho viver.Nossa própria imagem fica distorcida na Casa dos Espelhos da falta. É preciso que a gente se veja de forma nítida e simétrica. Caso contrário, acabamos nos perdendo de nós mesmas… E se faltamos, a presença do outro fica indispensável e imprescindível. Tão difícil enxergar a si mesma quando o monstro da falta está batendo na porta! Quase impossível alcançar o interruptor, acender a luz e fazer desaparecer os fantasmas quando a imaginação corre solta pelas trilhas do abandono. Ainda mais se essa escuridão se dá num domingo, dia que acaba carregando o peso da finitude existencial. Você já reparou que um final de domingo é a nossa mais concreta experiência de morte?Cada um na sua casa, que amanhã é segunda-feira! Ficam as bacias de pipoca na pia, com o milho que não estourou no fundo, lembrando que toda a diversão chega ao fim. Querer mais um pouco a companhia do outro é como reconhecer um desejo de permanência do prazer que vem desde as nossas primeiras perdas e separações. Nem sempre as adultas que residem em nós estão prontas para a batalha do dia seguinte sem um beijo de bom dia!Quem vive sob o mesmo teto costuma ter queixas semelhantes. Em algum momento o companheirismo se perde em meio às obrigações do dia, os ruídos da casa tomam o lugar de uma boa conversa e alguns papéis, por força de repetição, distanciam. O desejo de sintonia, muitas vezes, suplanta a boa e simples comunicação. Ficamos esperando que ele perceba que é uma boa hora para um carinho, que é urgente sua atenção, que é bem-vinda alguma ousadia. Sem bola-de-cristal, talvez ilhado nas próprias frustrações, o outro vai somando o peso de sua solidão à nossa.Seja da forma que for, os amores que valem a pena exigem concessões e ótima memória, pra não esquecer os momentos legais e passar a enaltecer apenas as ausências.Ter as mãos livres, de vez em quando, permite alcançar o leque que trazemos no bolso. Nada mais confortável que saber bem a intensidade de ar que nossas vidas precisam. Ode à solidão? Não, ode à capacidade de ficarmos numa boa. Viver e reinventar o amor depende, essencialmente, desse exercício de paz.
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