Solidão ressonante e clara

Não dava nem para acreditar. Tentou fechar os olhos para não enxergar a placa luminosa sinalizando: Jacobiaba a 3 km. Estava mesmo lá. Nem queria sentir aquele cheirinho característico de final de tarde, quando ameaça cair o maior toró, mas acaba nem chovendo.
– Só alguns pinguinhos! – desejou ela. Qualquer coisa que pareça lavar a minha alma!
Na verdade, seu real desejo era de voltar. De engatar a marcha ré no carro, fazer o balão sobre o canteiro da avenida devidamente florido, nem ligar para o apito do guarda que apitaria avisando que tal manobra era proibida e voltar para casa. Mas não podia. Ir até lá era seu destino, seu corpo sinalizava isso.
– Ok, já que estou aqui… vamos lá! – pensou. Afinal, foram quase quatro horas de estrada.
Para certas pessoas é simplesmente impossível não dizer apenas o que de verdade se está vivendo. Pessoas diante das quais não há sentimentos falsos. São encontros onde de repente tudo fica muito frágil e, no entanto o próximo passo, o de abrir cada vez mais o coração, simplesmente tem que ser dado.  Independente  da razão,  independente do  medo.  Simplesmente  se caminha para o outro.
E era assim entre Clara e Neto. Era imprescindível que ficassem juntos no momento em que um ou outro, para o bem ou para o mal, estivessem em harmonia. Verem-se apenas quando vinha a intuição, quase como uma ordem, irresistível e doce: “Vá!”.
Desde que se conheceram, ou melhor, quando se reencontraram e puderam perceber as mudanças que o tempo havia infringido nas suas vidas, seus rostos e caminhos. Desde este momento fora assim. Clara sentia que simplesmente “caminhava” para ele, como se o destino tivesse encarregado-se de fazer seus caminhos se encontrarem novamente.
Porém, hoje, sentia que era a hora de cada um construir sozinho sua própria trajetória. Não faltava paixão, mas perspectiva. Desta vez, era como se o destino tivesse dado um forte grito, sinalizando que se lavava as mãos. A vida voltaria ao curso normal.
Clara fechou o flip do seu telefone celular. Fechou também os olhos… Relembrou suas palavras de minutos atrás – também irresistíveis e doces. A atitude da coragem de pensar que tinham que ser aquelas as palavras, ainda que estas a assustasse; ainda que Clara temesse que o assustariam.
Ele chegaria a qualquer momento. No telefone disse estar saindo da tradicional pelada com os amigos. Tomaria um banho, colocaria uma roupa confortável e viria encontrá-la no local onde ela disse estar: uma sala de concertos que sempre lhe encantara.
Deu  uma volta pela sala,  observou o  estofado  das poltronas,  a passadeira colorida ao longo do corredor central, bebeu o último gole da sua água de côco e observou atentamente as explicações técnicas sobre o projeto acústico daquele espaço. Era seu desejo quase desesperado de encontrar subsídios para nortear o encontro. Algo concreto para explicar o inexplicável.
Pensou no fenômeno físico que imperava: que com o passar do tempo e a execução constante da música, todo o material de que era feito o prédio se “acomodava” melhor e passava a vibrar de maneira harmoniosa com seus sons, aumentando a qualidade e, portanto, a beleza da música. A este fenômeno chamava-se ressonância, onde “um corpo vibra quando atingido por vibrações produzidas por outro corpo quando o período de uma delas coincide com o seu ou com um dos seus harmônicos, reforçando as vibrações e, conseqüentemente, o som”.
Sentiu o braço de Neto rodear sua cintura, beijando-lhe a nuca sobre os cabelos longos. Respirou fundo, quase se sentindo nocauteada pelo agradável aroma do seu perfume e pelo calor da sua pele. Agora em contato com a sua.
Era  impressionante  a  intensidade  de  cada toque.  Uma  vibração harmônica e carnal, regida pela química que reinava absoluta em cada contato e em cada som.
– Não é maravilhoso? – perguntou ela. Lia sobre o que ocorreu nesta sala graças às reformas que concluíram por aqui. Não é apenas que a qualidade da sala daqui pra frente só vai aumentar, mas que um fenômeno físico simples seja tão bonito em seu modo de ser e em sua natureza.
Foi a única frase que Clara conseguira lhe dizer..
Depois, meses depois, percebeu que o que havia lhe encantado tanto na imagem dos corpos ressonantes era que a concretude do mundo objetivo era a perfeita metáfora para o que tantas vezes ocorre nas almas. Na sua alma. “Ressonância” era a tradução mais direta, simples e pura que ela havia encontrado até hoje para dizer o que, afinal, havia vivido com Neto.
As decisões tomadas e que estão mais próximas daquilo que o coração deseja são as que levam às maiores incertezas e à solidão mais funda. Incerteza que só pode habitar confiando e solidão que só tem valor sendo vivida. Deu uma gargalhada comprida e gostosa, acertou no lixo o papel do bombom Ouro Branco que acabara de devorar e lembrou-se – e concordou – de Rilke, que em sua visão filosófica e bonita das coisas, diz que a solidão somos nós mesmos. E era clara a ressonância daquela solidão.

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