Tem gente reclamando de seca

DESEJAR E VIABILIZAR O DESEJO DÁ TRABALHO MESMO!
Sobrou até pra água pra poder explicar a baixa libido de uma parte dos homens hoje em dia… Parece engraçado, não? A história disso começou com uma teoria atual, narrada por uma médica, estudiosa e interessada no comportamento e tendências contemporâneas que, com o crescimento das queixas de suas pacientes sobre a falta de apetite sexual dos parceiros, resolveu entender melhor o porquê disso. Diz ela que, com o uso desenfreado de anticoncepcional pelas mulheres, desde a liberação da pílula em 1962, tem excesso de hormônio feminino na água que utilizamos para tudo. Resultado disso? Os homens também estariam sob efeito de estrogênio e progesterona e, assim, com sua testosterona diminuída (alguém já ouviu falar de ocitocina, aí?, o tal hormônio do amor? Que tal derramar um pouquinho dele nas represas?).
“Será que ele não me deseja mais?”, “Será que estou feia?”, “Será que ele tem outra?”, “Falei algo que não devia?”, “Enjoou-se do meu jeito, do meu cheiro, de mim?”. Sim, é comum as mulheres sempre se responsabilizarem pelos ocorridos… Como se sempre tivesse que ter algo da gente pra justificar o funcionamento do outro.  Mas, deixando para outro texto a parte prepotente desse pensamento de responsabilidade total (que é onipotente, não?!), vamos considerar a conhecida baixa autoestima feminina, que não raro aponta pra essa direção e nos deixa arrasadas em situações assim (sem dúvida, é horrível mesmo se sentir rejeitada na cama!). Nós, mulheres, não somos acostumadas com o ‘não’… lembra das festinhas da adolescência? Os meninos convidavam as meninas pra dançar e um ‘não’ nunca acabava com a festa deles (salvo os supertímidos!). É como se os homens tivessem vindo com um dispositivo de fábrica que os habilitasse a ser rejeitados sem achar que era com eles… Na próxima música lá estavam eles convidando outra pra rodopiar ao som de ‘The lady in red’.
Talvez os homens sempre propuseram porque acharam ser esse o seu papel, mas também porque sabiam que nossa resposta, na maioria das vezes, seria NÃO! (até hoje se fala que tem as ‘moças pra casar’, as que são programadas para negar ou fingir seu desejo praticamente sempre; aguardando apenas serem ‘procuradas’).  
“Eu quero porquê sei que você não quer… será?”. Fácil propor assim, tendo a certeza da negativa: eles cumpriam seu papel com a garantia de que não precisariam fazê-lo… Só que agora as mulheres andam dizendo sim, sim, sim!! Estão não só topando uma série de coisas divertidas, como desejando e propondo também. Imagina a cara do marido, casado há 19 anos, quando a mulher disse: “Amor, eu quero sim o ménage a trois… eu topo!”. Sem dúvida ele gostou da ideia, mas também deve ter titubeado na proposta feita por ele mesmo há tempos… talvez o tesão estivesse justamente em ver a negativa dela, em manter a fantasia viva (por que o sonho difundido por aí é que todo macho tem que querer ter duas mulheres na sua cama, não é mesmo?! Ok, até pode ser… mas é comum ver que muitas pessoas nutrem sonhos sem de fato – e intimamente – ter se perguntado se realmente desejam isso).
Culturalmente a mulher não podia nunca expressar seu desejo. A repressão feminina nos pôs num lugar de espera. Tão difícil demonstrar nossa vontade… parece que é feio querer mais romance, mais sexo e beijo entre os lençóis ou no chão da sala. E algumas mulheres, de tanto terem ouvido, desde pequenas, que seu desejo era feio e nada bem-vindo, acabaram achando que nem gostam mesmo de exercer sua sexualidade em paz. Arriscamos dizer que, como tudo na vida, aqui também tem um efeito gangorra… as duplas parecem se formar assim: quando um sobe, o outro desce; quando ele quer, você não está numa fase muito a fim; quando ele está morto de cansaço e dorme, você já está querendo matá-lo! Puxa, será que sempre tem que ter um balde de água fria no desejo?
Deve mesmo ter um bom punhado de hormônios na água, mas também não dá pra projetar ali toda uma trajetória sociocultural: que tanto impôs quanto sequestrou o desejo. Talvez alguns homens estejam intimidados com as mulheres, talvez desistiram de sustentar (a duras penas!) o posto de galã viril 24 horas por dia ou simplesmente assumiram sem dó o próprio egoísmo. Nos mares da vida, difícil definir a ação das ondas…
Não são muitos casais que se sintonizam harmonicamente nesse quesito sexual (que é ‘apenas’ o que diferencia uma relação amorosa de uma amizade… afinal, relacionamentos não são parcerias fraternas, né?!). Logicamente, isso não pode justificar a cultura da infidelidade. Nunca! Mas, permite que pensemos porque será que não dá pra ser feliz com aquilo que se tem? Por que diabos não podemos de fato nos responsabilizar por aquilo que desejamos?  O psicanalista e psiquiatra paulista Jorge Forbes escreveu um livro, em 2003 intitulado ‘Você quer o que você deseja?’; onde olha nos nossos olhos e pergunta, sem papas na língua, se estamos cônscios da nossa permissão ou possibilidade psíquica para fazer com que nossos desejos aconteçam… Sim, porque desejar e viabilizar o desejo dá trabalho mesmo!  Bem mais fácil seguir achando que, por uma ação do destino, a água do vizinho sempre tem mais ocitocina do que a nossa…

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