Tesouradas Consentidas
E DE REPENTE NOS DAMOS CONTA QUE DEIXAMOS FACILMENTE OS OUTROS CORTAREM NOSSAS ASAS!
.
Talvez o amor precise ser sonhado para ser vivido. Como se encenado nos salões de baile da inconsciência da gente para poder rodopiar leve e deixar acontecer…No seriado Once Upon a Time (Era Uma Vez), as emoções são tratadas de tantas formas diferentes e simbólicas que poderíamos escolher qualquer episódio para falar do amor; mas “Dreamy” (14º episódio da primeira temporada), é tão rico que mereceu uma maior atenção: ali dá pra enxergar um cotidiano possível para qualquer um de nós.O episódio começa com o anão Zangado nascendo Sonhador (sim, é um dos anões da história da Branca de Neve mesmo!!!). Esse é o nome que ele recebe magicamente pela ‘leitura’ de seu toque, logo após nascer, saído de um ovo. Ele conhece o amor pelos olhos de uma aspirante a fada, que o desencanta com seu pó mágico, espalhado sobre o ovo num dos seus tropeços (a fadinha é apresentada de um jeito meio destrambelhada. Talvez denunciando que ela estivesse num lugar que também não era bem o seu… que nem quisesse ser fada!). Pouco antes do anão nascer, Sonhador, ele sonha com uma mulher; e quando conhece a fada Nova, nesses ‘acasos’ da vida, reconhece nela a mulher de seus sonhos… e sob à luz dos vagalumes, combinam de fugir juntos, apaixonados que estão: o anão que não podia amar e a fada atrapalhada. Na hora combinada para a fuga, quando o Sonhador tenta sorrateiramente sair da casa/mina, é surpreendido pelos outros seis anões, que lhe incentivam a seguir seu desejo de viver a vida com um amor, navegando e conhecendo o mundo (anão e fada compartilham o desejo de conhecer o mundo a bordo de um barco). Mas, no meio do caminho, aparecem o “Mandão”, aquele que dá as ordens aos anões e a Fada Mestra, aquela que treina Nova para ser uma reconhecida fada madrinha e os dois discordam do Sonhador insistindo que ele desista da ideia (parece ser sempre assim… nos contos de fadas e na vida!). Convencido pelo discurso persuasivo de ambos, o nosso anão apaixonado não vai embora… Ele passa a acreditar que prejudicará o futuro da fada, bem como o seu; a acreditar que lhe ‘cortará’ as asas e que não sabe e nunca saberá amar (“anões não amam”, repete sem parar o tal Mandão desde o seu nascimento). E como se não estivesse já amando, volta zangado para as Minas, quebra sua antiga marreta – cunhada pela profecia com o nome de Sonhador – e vê um Zangado sendo impresso no novo cabo de madeira e na sua face… as lágrimas de um sonhador dão lugar a uma expressão de pesar e amargura. Está zangado agora.Fazemos isso também quando desistimos de nossos sonhos? Por que algumas vozes ficam tão audíveis a ponto de neutralizar a nossa? De malas prontas, muitas vezes, nos pegamos voltando atrás dos nossos ideais… Como se nosso sonho valesse pouco ou nada. Como se sempre algum ‘Mandão’ soubesse bem mais de nós que nós mesmos (que absurdo, né?!)Não é o sonhar que afunda um barco… é exatamente o contrário: é o peso de não poder sonhar e desejar que o afunda. Afinal, a verdade não estava nem no Mandão – superego, nem na fada-madrinha-sabe-tudo… a verdade estava dentro deles e no desejo que tinham de realizar seus sonhos, de sonharem juntos!E desse jeito ficamos nós, emburrados com os próprios sonhos que nos impedimos de sonhar… esmagados pela rotina, pelo dia-a-dia e pelas responsabilidades. E não se trata de, infantilmente, querer tudo que se quer, indiscriminadamente… se trata de, adultos já, poder içar as velas de seu barco/desejo para navegar por aí.
Ao contrário do anão da série, não nascemos de um ovo. Mas assim como ele, também nascemos num ambiente e somos recebidos por alguém disposto a explicar direitinho (ou não), como é que funciona a vida por aí (claro que essa explicação será sob a luz dos olhos de quem explica!). Será que recebemos de nossas famílias a permissão para amar e nos relacionar? Ou será que somos avisados que não poderemos nos apaixonar? Ou que bom mesmo é ficar ali naquele ambiente familiar conhecido, unidos por laços tão fortes, que desatá-los seria um desacato, quase um crime? Está repleto de gente dando pitaco na vida dos outros, como se suas vivências e preconceitos norteasse a vida de todos…Se Gustave Flaubert tivesse desistido do seu sonho, hoje não nos deliciaríamos com sua primorosa Madame Bovary… Certamente, lá em Paris, em pleno 1849, não faltaram Mandões-superegóicos e Fadas-sabem-tudo querendo dissuadi-lo de sua obra, querendo que desistisse de publicar o que até hoje é considerado um dos melhores romances da literatura! Talvez Flaubert pode considerar também a opinião dos outros ‘seis anões’ (seus pares) para poder continuar apostando e seguir em frente. E voando pro tempo presente, é possível lembrar de tantas e tantas outras histórias… como a da amiga que deixou sua velha tia lhe cortar as asas: desistiu de largar seu estável emprego público e não aceitou o desafio de trabalhar e amar na cidade litorânea e ensolarada dos seus sonhos… até hoje ela reclama da expressão zangada que enxerga todas as manhãs no espelho que reflete sua face rígida e sua cama vazia. Por que ela aproximou suas asas da tesoura? Por que chegou tão perto do perigo conhecido (sim, todos sabemos bem de quais direções virão os cortes…desde pequenos a luz da lâmina brilha cada vez que nasce o sol!) Talvez precisasse disso, talvez… sonhar e bancar a realização dos desejos tem um preço e muitas vezes o julgamos impagável! Mantemos o foco tão fixo no jugo que esquecemos de ouvir a voz doce e assertiva do sonho… Esquecemos que ninguém melhor que nós mesmos para sabermos da nossa verdade! E aqui dá pra encaixar bem a Psicanálise, que desde seus primórdios pode ser pensada como um método investigativo que ajuda na busca da própria verdade: nos aproxima de uma forma menos distorcida desta verdade para podermos ser quem realmente somos!Nortear os sonhos com as setas da realidade não significa obrigá-los a um ‘meia volta, volver!’, é possível ir em frente apesar da cultura que estamos inseridos (sim, porque muitas vezes os sonhos precisam de uma certa adaptação!), mas sem sucumbir ao peso dos olhares de alguns que nos indicam apenas o caminho de volta. Talvez seja o sonho que nos salve da zanga que encarcera e adoece, que afasta os outros e gera tanto prejuízo, que tinge de cinza aquilo que é naturalmente colorido. E como já dizia Fernando Pessoa: “Tudo é ousado a quem nada se atreve”.Talvez seja o considerar um sonho que faça o amor viver!Flávia Bernardi
com participação mais que especial da colega e amiga Denise Casara*
Comentários
Postar um comentário