Teu sapato para o meu primeiro passo
Texto premiado 1º lugar, Categoria Conto, Concurso Literário de Gramado – RS, junho de 2001.
Ela sem ele era nada.
Ele sem ela, achava que era tudo.
Foi que um dia, em meio a mais um das intempestivas crises histéricas dela, ele escancarou:
– Nem mais isto tu sabes fazer
– Isto o quê? – ainda gritando , indagou ela.
– Isto… isto que tu chamas de colocar para fora, de pôr em palavras o que se sente.
– Era só o que me faltava- pensou ela que se chamava Adélia. Conferiu no relógio grande da sala, pendurado na parede, que haviam ganho de presente de casamento da tia dele – de muito mau gosto, diga-se de passagem – e que só ainda estava ali porque ele insistia em dizer que a moldura tinha sido esculpida pela própria tia, inspirando-se nele. “Tão barroco quanto tua cabeça de barro”, ela sempre costumava dizer em meio às discussões para a sua retirada. Mas conferiu mesmo assim. E, como o seu relógio de pulso, ele também marcava três horas da madrugada.
– Não, era tudo o que eu precisava. Um analista comportamental plantado na minha frente no meio da madrugada. E atrasado para a sessão… se é que alguém neste mundo trabalhe a esta hora, né Cláudio?
Sempre que ela se recompunha e utilizava a razão em seus discursos comumente passionais, era ele que se desestruturava. Tinha sido assim desde a lua-de-mel, perdurando por estes quatro anos de união conjugal.
– E meu pai me avisava para não casar.. eu não dava ouvidos.. guri novo. Viu só no que deu. Casei e dai… sei lá mais o que dizer. – disse isso e foi se dirigindo para o banheiro, como se nada tivesse acontecido.
– Que tal tu explicar onde estava até agora, antes de ir fugindo, como o teu pai fez.
– Não coloca o meu pai no meio disso, não! Tu nem o conheceu…
– Claro, ele fugiu antes que eu te conhecesse… e além do mais, foi tu quem o trouxe para a conversa.
– Conversa? Tu chama isso de conversa? Conversa para mim é o que está acontecendo aí nesse filme água com açúcar que tu já assististe umas mil duzentas e cinqüenta e oito vezes…
– Ô Cláudio! ! – bradou impetuosamente. Já não basta o pai, agora tem o filme também? Que tal tu trazer o roteiro e o elenco do teu atraso, hein!?
– Minha vida não é filme não, dona Ana..
– Pronto! – desabafou Adélia, com a voz já cansada, sentando-se no sofá azul da sala de estar que ela havia decorado minuciosamente, assim como o restante da casa. – Até estava achando estranho que minha mãe não tinha aparecido na conversa.
– É que tu parece ela, fala como ela. Perdão, my lady, berra como ela!
Ela sempre odiava quando ele referia-se a ela utilizando este pseudônimo. Soava completamente pejorativo aos seus ouvidos. E ele só falava o tal “my lady” em momentos de stress conjugal, com acentuado tom de desdém.
– Até parece que tu já discutiu com a minha mãe! Tu mal fala com ela, que fica tentando puxar algum assunto contigo o tempo inteiro, quando, raramente, a gente vai lá almoçar com ela.
– É que os papos dela são tão agradáveis..
– Pára, Cláudio! Deixa de ser irônico, grosso e infantil! Ou melhor, pára de fugir, inventar coisas e assuntos para desviar a conversa do objetivo real. Eu quero é saber onde tu estavas até uma hora destas em plena terça-feira!
E o Cláudio já estava embaixo das cobertas. A roupa jogada pelo chão, um sapato para cada lado, telefone celular no silencioso, sinalizando as inúmeras chamadas com o número de casa. Todas não atendidas. Ela até tentou continuar o assunto. Continuou com as perguntas, arrancou as cobertas, ficou com vontade de lhe atirar os sapatos. Até pegou um na mão, mas ficou imóvel quando lembrou do dia em que ela fora comprá-los para ele. Tinha entrado na loja, olhado para vários, quando colocou os olhos naquele par. Tinha a cara dele. Não sabia exatamente o porquê, mas tinha. Examinou-o com cuidado, conferiu se era couro mesmo fazendo o teste da unha. E era. Bom, pelo preço que a etiqueta trazia, tinha que ser – “Até a fivela poderia ter uma banhozinho de ouro” – pensou com os seus botões. Mas nem o preço, pra lá de exorbitante, a fez desistir de solicitar ao vendedor um número quarenta e dois. E pedir para que embrulhasse para presente, “num pacote bem bonito, por favor, que é para o meu marido!”. Usou seu cartão de crédito para não ter que dar um cheque da conta na qual tinham conta conjunta. Afinal, achava justo pagar com seu próprio dinheiro, já que não estava brava com ele e ainda era a época em que procurava agradá-lo de todas as maneiras, tentando melhorar o seu casamento.
A estas alturas já estava sentada no chão do closet, entre o quarto e o banheiro; com o sapato nas mãos, cabelo completamente desalinhado – tão diferente de quando saíra, horas atrás, do salão do Carlinhos! – umas olheiras profundas fazendo moldura para um olhar desolado. Não era o que havia sonhado para sua vida. Não era mesmo! Olhou mais uma vez para o sapato, lembrou da sua imagem refletida no espelho de uma das lojas pela qual passara no dia da compra do sapato. Nem ela mesma acreditava que tamanha diferença àquela noite tinha apenas três anos.
– Parece que faz, no mínimo uns quarenta anos desde aquele dia, falou baixinho para si mesma. O que eu pareço? Tenho trinta e dois anos e quatro meses e pareço ter uns setenta, oitenta , cem , sei lá… pareço uma morta-viva! E ficou repetindo o “morta-viva” umas doze vezes, mais ou menos. E quando parou de falar, a expressão continuou ecoando na sua mente. Fazendo acelerar sua pulsação, mas diminuindo seu fluxo respiratório. Era exatamente assim que vinha sentindo-se ultimamente: uma “morta-viva”. Uma pessoa viva que perdeu o sentido, a noção de sujeito. Tornando-se meramente um objeto. Sem perspectiva, sem futuro, quase sem história. Pensou no porquê precisava estar morta sendo viva. Não vivia mais, dera-se conta. Deixou sua profissão de lado porque Cláudio achava melhor. Isto é, porque ela solicitara e permitira, inconscientemente, que ele achasse melhor e exigisse determinadas atitudes suas. Sabia disto. Mas julgava ser tarde para mudar a situação. E, como sua terapeuta sempre dizia, era muito cômodo para ela. Não havia gostado muito desta idéia no dia em que ouvira, mas naquela noite, teve um insight tardio. Pode entender o quanto fora cômodo manter-se assim, “protegida” das suas verdades e das maldades do mundo. Mal sabia ela, até então, que essa mentira – a que vinha chamando de vida – era a pior maldade a que podia submeter-se. Pensou no homem dos seus sonhos e dos inúmeros esforços que fazia todos os dias para que Cláudio se encaixasse neste perfil, correspondendo às suas expectativas. Suas amigas, seu cigarro eventual, sua adoração por cachorros, sua pós-graduação interrompida, a TV programada para desligar apenas depois que dormisse.. tantas coisas que deixou para trás por aquele homem. Tantas lacunas preenchidas neste tempo todo com suas desconfianças, ataques de ciúme e à geladeira, além das longas esperas madrugada adentro. Num piscar de olhos enxergou todas as vezes que escutava o barulhinho da chave na fechadura, punha-se de pé, conferia o horário naquele detestável relógio de parede e lhe cobrava explicações. Não podia negar: o relógio, embora detestável, sempre lhe fora sensato. Ao contrário de Cláudio.
Levantou-se e passou a mão no cabelo tentando arrumá-lo um pouco. Aproveitou e passou a mão também em algumas roupas que lhe eram importantes, alguns sapatos, cintos e bolsas. Coincidentemente, tudo o que lhe pertencia há mais de quatro anos. E neste momento esboçou um sorriso.
Já na porta do quarto, deu uma última olhada para aquele homem que dormia de bruços, com os braços debaixo do travesseiro e o rosto voltado à parede. E lembrou-se que sempre fora assim. E pode sentir o frio que passou nos quatro invernos naquela cama, sem poder contar com um corpo disposto a aquecê-la. E do frio na alma sentido durante os quatro anos naquela vida. Mais lágrimas insistiram em rolar pelo seu rosto, e aí ela abraçou o próprio corpo com suas mãos e olhou para fora da janela, vendo o sol que já ia nascendo. Ir embora era a melhor forma de aquecer-se.
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