YO PROMETO

YO PROMETO

Se um dia tua voz silenciar, tentarei decifrar tua alma

“No final da minha vida, cuidem de quem cuidar de mim”. Ouvir essa frase brotando sincera e aflita da boca de um amigo querido, inevitavelmente, acende a lanterna para a tal finitude: esse capítulo que tantas vezes se faz de conta que nem existe… apesar de se saber, o tempo todo, que o fim chega e que da morte ninguém escapa. Mas, o “cuidem de quem cuidar de mim”, dito por ele, transcendia a morte: falava do período antes do fim, que pode durar muito. Falava do ter consciência de tudo o que está acontecendo, mas, não ter capacidade física para reagir ou denunciar, estando à mercê da agressividade selvagem e insensibilidade de um cuidador. Falava da dignidade plantada e talvez não colhida; dos labirintos desconhecidos dos seres humanos; falava das agruras da vida. Em O Mal Estar na Civilização, texto escrito em 1929, Sigmund Freud fala da dificuldade que é amar o próximo como a si mesmo, da natureza má do homem e do seu egoísmo que, quando não bem reprimidos dentro de si mesmo, acabam transbordando e fazendo tantas vítimas: “O amor ao próximo é um mandamento que na verdade se justifica pelo fato de que nada mais contraria tão fortemente a natureza original do homem”, sentencia Zygmunt Bauman, quando comenta o texto freudiano citado acima, no seu livro Amores Líquidos. Não é raro ouvir histórias escabrosas de abusos e maus tratos: pessoas e animais em idades e/ou estados vulneráveis tratados de formas inimagináveis por aqueles que, por debaixo do avental alvo escondem, dissimuladamente, uma agressividade desgovernada. E foi aí que Belchior surgiu, magicamente, cantando e lembrando também das tendências destrutivas dos sujeitos: “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas… E eu não posso cantar como convém sem querer ferir ninguém. Mas não se preocupe meu amigo, com os horrores que eu lhe digo. Isso é somente uma canção. A vida realmente é diferente, quer dizer: ao vivo é muito pior.”
Não é difícil constatar a maldade aplicada, vitimando aqueles que mais amamos: crianças podem ser más, pré-adolescentes podem ser muito maus… existem situações em que o grau de maldade e sordidez dos fatos fazem situações entre colegas lembrar uma trama macabra. Se a inveja e outras questões mal resolvidas podem gerar tanta coisa ruim entre pessoas com pouco mais de dez anos, dá pra imaginar o estrago que faria com alguém incapaz e no final dos seus dias.
E Belchior segue cantarolando: “Não quero lhe falar meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos; quero te contar do que vivi e de tudo que aconteceu comigo…” Querer falar e não poder deve ser algo avassalador. Vir o desejo de contar algo, pedir ajuda, balbuciar algum afeto e… nada! Apenas ter que assistir, in loco, sua própria dignidade ser furtada por alguém. A frase, parte da linda canção de Belchior Como nossos Pais, fala, além do desejo que temos de contar aquilo que está acontecendo conosco, do desejo que existe no homem de poder se reinventar, de evoluir, de ser diferente e melhor… Mas, é sabido o quão difícil é o homem ser bom simplesmente pelo fato de assim o ser: ser bom quando não tem plateia, ser bom quando ninguém vai descobrir seu malfeito, ser bom porque sua essência e consciência apontam para essa única possibilidade. Cuidar de alguém por contrato deve ser algo muito difícil mesmo: não que os vínculos sejam garantias absolutas de bons tratos, mas, podem facilitar que junto com banho/remédio/ comida também sejam dadas fartas colheradas de afeto empático e solidário.
No filme O Paciente Inglês, Juliette Binoche interpreta Hana, personagem que cuida com a alma e o coração dos seus pacientes, em estados pra lá de crítico, aumentando com consideração a sobrevida dos que necessitam dela. Ok, o personagem que dá título ao longa não perdeu a capacidade da fala mas, sem ter nem mesmo um nome que o identifique, encontra-se num estado absurdo de dependência e sofrimento: é a escuta e presença atenta dela que lhe devolve a humanidade. Longe de generalizações injustas, existem muitos cuidadores leais e humanos por aí: resta torcer para uma ‘Hana’ cruzar o caminho e acarinhar tudo aquilo que segue internamente vivo apesar das circunstâncias.
Então, amigo, escuta: quero estar ao teu lado se um dia te faltar a fala, se te faltar a voz para falar das tuas mazelas, caso não puderes denunciar algo que te arrasa, maltrata ou machuca… Se um dia teu cérebro seguir maravilhoso como sempre foi, mas da tua boca não sair mais nenhum som audível: quero estar ao teu lado decifrando tua respiração, se preciso for. Prometo não esquecer teu pedido: ficar atenta e por perto. Prometo cuidar de quem cuidar de ti. Prometo chamar nossas amigas de sempre pra te fazermos sorrir e tentarmos, juntas, olhar no fundo dos teus olhos e ler o que se passa no teu coração. Yo prometo! Porque amizade é coisa séria, é destino, é família que a gente escolhe…  e, como também cantou Belchior: “Por força deste destino/ Um tango argentino /Me vai bem melhor que um blues.”
A amizade, bem como todos os vínculos verdadeiros, não tem fronteiras!

– Flávia Bernardi

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CINCO SÍLABAS

DÊ-ME SEMPRE A SUA MÃO!

EM TEMPOS DE PANDEMIA: A palavra como antídoto para as angústias