MI LUNA, MI CORAZÓN
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MI LUNA, MI CORAZÓN
30/03/2020
Tchekhov, em seu livro O Duelo, diz: “O senhor mesmo sabe que uma situação indefinida é um estímulo considerável para a apatia das pessoas.”
Parecia mágica estar lá! Chegar em Montevidéu exatamente no dia do show – e em tempo de chegar à Antel Arena – era mesmo uma deliciosa coincidência, quase um presente. Ele sempre considerou Joaquín Sabina um grande artista, desses que tocam o âmago da alma da gente. Dizia que Sabina era um ‘Bob Dylan castelhano’ ou um ‘Belchior espanhol’, dada a arte que emanava das suas canções, e há tempos sonhava em assistir uma apresentação dessa figura. Ambos na casa dos setenta, ele sabia bem o peso de cada passo nessa altura da vida… não porque faltasse-lhes vitalidade, muito pelo contrário: ambos gozavam de uma saúde invejável, mas era inevitável o ônus das memórias dessas sete décadas de vida. Tinha o maior apreço por essas pessoas que fazem o tempo andar a seu favor, que não vestem a casaca sem graça do peso dos anos, nem nutrem o sorriso amarelo como se fosse a única coisa que lhes restasse.Joaquín Sabina tinha embalado sua grande história de amor: conheceram e se apaixonaram juntos pela obra inteirinha do artista, no tempo em que resolveram mudar radicalmente de ares e acordar sentindo todo o dia a brisa do rio que tem cara de mar: o Rio de la Plata! Em anos e anos vivendo em solo uruguaio, nunca esquecera sua nacionalidade verdeamarela, mas as tonalidades que sua vida ganhara ali, naquela nova pátria, era algo que produzia nele um doce ronronar.Chamava a mulher de Luna e, juntos, na casa de fachada magenta e porta de entrada verde esmeralda, no coração da Rambla Gandhi, da capital uruguaia, fizeram brilhar sonhos em cada uma das fases que desfrutaram por lá. Foram anos e anos de amor parceiro, forças somadas e mãos dadas… até o dia que ela anunciou sua partida.“Tanto a queria que demorei em aprender a esquecê-la, dezenove dias e quinhentas noites…”, cantava Sabina, num dos seus clássicos, agora no palco, logo no início da sua apresentação. Essa música remetia-o à sua história e fazia-o pensar que, certamente, o músico também tivera uma Luna na sua vida… que também sabia como era difícil esquecer alguém que se faz lembrar toda a noite, quando tudo se apaga e seu nome brilha, escrevendo-se naturalmente no céu: numa fonte cheia, minguada, de um jeito novo ou, com uma letra tão brilhante e crescente que é quase impossível pregar o olho de tanta saudade. Só tendo vivido algo assim para poder compor uma canção onde as noites trazem de volta toda a paixão que parece esquecida à luz do sol!‘No quiero que te vás, nem me imagino vivendo sem usted… mas não posso te pedir que fiques se queres ir”, disse ele em frente à casa que ainda era deles. Ela foi, sem dizer palavra… ele baixou os olhos, no livro trêmulo e aberto sobre suas pernas, numa poesia de João Horácio Cartier: “Segue-a – disseram, que depois é tarde./ O corpo e o coração. Mas eu, covarde,/ Tendo receio de outra vez amar,/ De abrir de novo as íntimas feridas,/
Que tanto pungem quando resolvidas,/
Cerrando os olhos a deixei passar!”E foi bem assim… ele deixou sua Luna partir, sem dizer nada também. Apenas permitiu que ela fosse. No velho rádio pendurado na janela, naquele final de tarde, misturado ao som estridente do portão se fechando, Sabina cantava: “o que eu quero, menina de olhos tristes, é que morras por mim (…) Porque amores que matam nunca morrem”.
E ele sempre morrera de amor por ela. Mas naquele momento, duvidava se o amor dela matava ou morria…Terminado o show, jogou, no primeiro lixo que encontrou, as ‘pastilhas’ que vinha carregando no bolso nesses dois derradeiros anos. A última canção cantada por Sabina, outra das suas preferidas, ‘Pastillas Para No Soñar’, trouxe o gostinho pra sair dali e preencher seu céu:“Se o que você quer é viver 100 anos,
Não prove os licores do prazer.
Se tem alergia aos desenganos,
Esqueça essa mulher.
(…)
Se o que você quer é chegar aos 100 anos,
não viva como eu, deixe passar a tentação, diga a esta mulher que não te procure mais
E se reclama o coração,
na farmácia, pode pedir: “tem pastilha para não sonhar?”Ele não queria viver 100 anos. Só o tempo suficiente – que pode ser meses, 40 ou 110 anos – pra dizer pra Luna que queria viver para estar com ela, roçando sua pele na dela, sem sentir-se apático.Fim do duelo. Ligou para ela.– Flávia Bernardi
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