Postagens

O Amor Não Pode Viver na Penumbra

É a tal solidão a dois… aí a gente fica tipo cabra-cega procurando o outro no vazio do quarto e não encontra ninguém. Se enroscar nas próprias fantasias era quase uma constante. Bastava um olhar cerrado, atravessado ou gélido para que os caracóis dos cabelos adentrassem e embaralhassem seus pensamentos. A maturidade havia se tornado um pente eficaz para desembaraçar fios e medos… inseguranças e falsas percepções se desfaziam fáceis quando as cerdas da serenidade lhe passavam à cabeça. Mas em alguns momentos nada dissolve os nós: as convicções são infalíveis quando se entrelaçam com as inseguranças ou ativam capítulos dolorosos anteriormente vividos. Naquela noite, olhos fixos mais uma vez no lustre pendente do teto. Um único clarão entrava furtivo pela fresta da cortina mal fechada e iluminava o quarto. Cama cheia, corpo vazio. O líquido que seria seu ainda armazenado no corpo dele. Cenário perfeito para os fantasmas saracotearem atrevidos e perversos, caindo sobre ela como pétal...

Conto de Natal

Arrumei minha franja volumosa me espelhando na bolinha prateada da árvore. Último ajuste para a chegada do bom velhinho. Disseram que ele chegaria dentro de alguns minutos e eu não queria perder tempo. Não é todo dia que o Papai Noel visita a casa da gente e ainda por cima traz presente! O cabelo precisava estar alinhado para combinar com minha roupa nova, afinal, estava achando tudo aquilo muito especial. Minha mãe havia dedicado horas à produção do peru: brincos de cereja, colares de ameixa preta, vestido de fios de ovos e muito abacaxi na bandeja que fazia as vezes de jardim. Todo cuidado foi pouco para transportarmos a “dona Perua” (batizamos assim o peru, naquela tarde enquanto a ave ainda tostava no forno escaldante!!) até o local da festa. Meu pai desviava os buracos da estrada e, a cada curva ou freada mais brusca, meu irmão conferia o estado da “dona” que estava acomodada zelosamente no colo da minha irmã e fazia, muito satisfeito e orgulhoso, um sinal de positivo. Lembrei do...

Na TPM Eu Deixo de Amar

Parte do texto publicado na Revista Noivas, encarte do jornal Pioneiro de Caxias do Sul, em Setembro de 2017. Ela secava a fronte e apertava as mãos. Chacoalhava os dedos numa velocidade frenética: tamborilavam no samba ardente dos hormônios que regiam seus nervos desde que raiara o dia. Seu olhar injuriado e angustiado se perdia pelas gotas secas da vidraça da sala. Como nunca havia pensado nisso nem se dado conta até aqui? Como nunca percebera que aquela gentileza toda era pura artimanha para lhe enredar num plano sórdido de prisão domiciliar? Devia ter estranhado, percebido logo de início que lhe mimar com sushis numa simples quinta-feira à noite, ajudar com os animais da casa, ser carinhoso, disposto e disponível rimava com falsidade de um, até, quem sabe, sociopata à paisana… Logo ela, que não nascera ontem e primava tanto pela sinceridade, se viu iludida pelo modo fácil que ele largou os compromissos de solteiro, que quis andar de mãos dadas no mercado, que topou filmes com ...

Tesouradas Consentidas

E DE REPENTE NOS DAMOS CONTA QUE DEIXAMOS FACILMENTE OS OUTROS CORTAREM NOSSAS ASAS! . Talvez o amor precise ser sonhado para ser vivido. Como se encenado nos salões de baile da inconsciência da gente para poder rodopiar leve e deixar acontecer… No seriado Once Upon a Time (Era Uma Vez), as emoções são tratadas de tantas formas diferentes e simbólicas que poderíamos escolher qualquer episódio para falar do amor; mas “Dreamy” (14º episódio da primeira temporada), é tão rico que mereceu uma maior atenção: ali dá pra enxergar um cotidiano possível para qualquer um de nós. O episódio começa com o anão Zangado nascendo Sonhador (sim, é um dos anões da história da Branca de Neve mesmo!!!). Esse é o nome que ele recebe magicamente pela ‘leitura’ de seu toque, logo após nascer, saído de um ovo. Ele conhece o amor pelos olhos de uma aspirante a fada, que o desencanta com seu pó mágico, espalhado sobre o ovo num dos seus tropeços (a fadinha é apresentada de um jeito meio destrambelhada...

O que que há com os nossos olhos?

NÃO RARO TROCAMOS O FOCO NO MUNDO PELA DIREÇÃO EM QUE OLHA O NOSSO AMADO A vida é uma grande viagem, isso é fato!  Nascemos e já embarcamos no olhar da mãe que vai nos apresentando o mundo… e é bem assim: olhando para onde olha o olhar dela, descobrimos pessoas e lugares. Enrolados em panos, ainda, nos cabe apenas torcer para que nossas mães olhem desejosas e esperançosas para os lados (bem como, para que se olhem em seus próprios espelhos e se enxerguem válidas!). E vamos crescendo; espera-se que curiosos e seguros o suficiente para desejar que novos elementos surjam no nosso enredo, que a visão se amplie e, tomara, se refine! Noutro dia, uma amiga entusiasta falava que o feminino nos reserva um olhar apurado (quase intuitivo, um feeling nato ou algo assim!). Dizia ela que a alma feminina tem um certo dom de captar situações através olhar. Por insegurança ou perspicácia, talento ou defesa, a ideia é que as mulheres teriam uma capacidade ímpar para tanto. Se seg...

Entre o amor líquido e a liquidação afetiva

A GENTE FICA SEM SABER O QUE FAZER QUANDO VÊ O MARIDO DA AMIGA NO TINDER Ainda pequenos, ouvimos nossas mães cantarolando canções que davam ao amor romântico o poder de solucionar os nossos medos mais iniciais. Era como se fosse indispensável termos alguém. Aí vem o Zygmunt Bauman, com seu ‘Amor Líquido’, e nos diz que, no que se refere a relacionamentos, hoje em dia nada é feito para durar. Segundo ele: “a insegurança inspirada por essa condição estimula desejos tão conflitantes a ponto de estreitar esses laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos”.  Respirando fundo, dá pra pensar mesmo que jamais os laços afetivos foram tão descartáveis… e que nunca as pessoas viveram tão inquietas e incessantemente decepcionadas com seus relacionamentos. A impressão é de que uma nova ética está surgindo. Serão novas formas que as pessoas estão encontrando para manter suas relações, ou apenas as velhas amarras que fazem com que o sujeito (mesmo vendo o amor e o desejo dobrar a esquina d...

Tem gente reclamando de seca

DESEJAR E VIABILIZAR O DESEJO DÁ TRABALHO MESMO! Sobrou até pra água pra poder explicar a baixa libido de uma parte dos homens hoje em dia… Parece engraçado, não? A história disso começou com uma teoria atual, narrada por uma médica, estudiosa e interessada no comportamento e tendências contemporâneas que, com o crescimento das queixas de suas pacientes sobre a falta de apetite sexual dos parceiros, resolveu entender melhor o porquê disso. Diz ela que, com o uso desenfreado de anticoncepcional pelas mulheres, desde a liberação da pílula em 1962, tem excesso de hormônio feminino na água que utilizamos para tudo. Resultado disso? Os homens também estariam sob efeito de estrogênio e progesterona e, assim, com sua testosterona diminuída (alguém já ouviu falar de ocitocina, aí?, o tal hormônio do amor? Que tal derramar um pouquinho dele nas represas?). “Será que ele não me deseja mais?”, “Será que estou feia?”, “Será que ele tem outra?”, “Falei algo que não devia?”, “Enjoou-se do meu ...